quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Madame Bovary, um livro que toda mulher deveria ler

 Emma Bovary, eis a mulher saída da imaginação de Gustave Flaubert para se tornar uma lenda literária, heroína de uma história aparentemente banal sobre um casal francês onde o marido é apaixonado e a mulher fútil, morta de tédio -- e adúltera. O fascínio exercido pela personagem é tão  espesso que a descrição de seus estados de espírito gerou o termo "bovarismo" para indicar  uma doença da alma que torna o ser humano incapaz de lidar com a realidade de frente -- e de ter senso crítico sobre os erros cometidos.
Era uma morena bonita, de cabelereira lisa e longa; quando soltos, os cabelos chegavam às pernas. Tinha lábios carnudos -- que costumava mordiscar --, as faces rosadas, grandes olhos negros, nariz correto e "andar de passarinho". Educada em colégio de freiras, aprendeu  desenho, geografia, dança,  tapeçaria e  piano. Foi no convento que ganhou de uma amiga os romances sentimentais que contribuíram para sua patologia.
Emma passou a sonhar e respirar com "amores, amantes, mulheres perseguidas e desmaiando em locais solitários, bosques sombrios, males de amor, juras, soluços, lágrimas e beijos, homens fortes como leões, suaves como cordeiros, virtuosos como nunca se é, sempre bem vestidos e que choram como bebês."  Essas fantasias marcaram seu temperamento e viria a influenciá-la pelo resto da vida.  Como bem diz Flaubert -- Emma imaginava-se vivendo em algum velho palacete "como as castelãs de longos corpetes, que sob o trevo das arcadas passam os dias com o cotovelo na pedra da janela e o queixo apoiado na mão, olhando ao fundo da paisagem, para ver se do campo chega algum cavaleiro com uma pluma branca no chapéu, galopando um corcel negro”.   

Quando Emma conhece Charles Bovary, o médico com quem se casaria, sua mente está cheia de ilusões --  anjinhos de asas fofas, flores, lagos e gondoleiros.  Acredita que terá uma vida glamurosa de esposa de médico, mas o tempo a joga numa tediosa rotina de cidade do interior. Para tentar fugir do tédio, da decepção e da vida real que em nada se assemelha aos sonhos, Emma encontra o alívio e a perdição no consumismo desenfreado, nas aventuras extra-conjugais e na imitação de uma vida que não pertence a ela
 Na verdade, Charles é um homem insípido, quase um parvo, de conversa rasa, incapaz de provocar emoção, riso ou sonho. Nada parece interessá-lo. Os devaneios da mulher são exarcebados quando o casal é convidado para um baile na mansão de um aristocrata rural.

Ali ela sente "o roçar da riqueza".  Seu desejo pelo luxo é despertado - comprou um mapa de Paris e "com a ponta do dedo deslizando sobre ele, fazia compras na capital." Sabia das peças teatrais em cartaz, as novidades do consumo, as festas, o endereço dos costureiros da moda...  O primeiro amante, Rodolphe, um aristocrata acostumado às paixões age como o perfeito canalha.  Ele a explora sem o menor escrúpulo -- desejava apenas sexo e desde o início já se preocupara em como se livrar dela depois de alcançar seu objetivo. 
Madame Bovary é a vitrine onde Flaubert coloca um  catálogo das doenças da modernidade. Cada vez que seus planos são contrariados pela realidade ela fica doente de  torpor, calor, palpitação.. Fica deprimida, mente, e mostra uma ponta de maldade. Não se interessa pela única filha, tem febre cerebral, enxaqueca e insônia. Torna-se uma consumidora descontrolada, cobre-se de dívidas, colocando a família em abismo financeiro.  
Por meio da personagem, Flaubert apresenta dois aspectos de sua época que considerava proeminentes -- o tédio e a estupidez. Para o escritor, existem dois tipos de tédio: o comum, do qual todos sofremos por vezes, e o tédio moderno, típico de um mundo em progresso que oferece distrações fictícias. Da estupidez, nem Emma nem qualquer personagem do romance escapa... Ela não se dá conta da loucura de seus desejos e não faz nada para melhorar sua própria vida ou tentar compreender seu comportamento.
A história -- é claro -- não acaba bem.



quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Viver em Viena


Dias atrás, meu marido e eu recebemos a visita de uma família amiga de longa data: homem, mulher, filha. Pessoas que passam a vida em deslocamentos constantes, às vezes para lugares longínquos como a Austrália ou a África do Sul, conforme o charme que a profissão de diplomata oferece. Quem nunca se imaginou percorrendo o mundo inteiro, de modo aventureiro? Na juventude, desejei ser aeromoça, na maturidade quis ser mulher de camionheiro, rodando, rodando...Mudar de endereço é um tipo de aventura, até de bairro. Principalmente, no primeiro estágio: a adaptação aos costumes locais, à geografia, às novas pessoas... Por coincidência, vivo esta experiência no presente: quase um ano após a vinda para Paraty ainda me sinto turista na cidade, na montanha e na praia.
Passo a palavra à Sonia Bonzi que procura traduzir com sentimento  uma parte da vivência dela em Viena, durante a década de 70, ao lado do marido, quando ainda não tinham os três filhos e ele mal iniciara a carreira diplomática.

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"Acendo as luzes pouco antes das três horas da tarde. Não faz muito que saí da cama. Lá fora o frio assusta e o vento desarmoniza o desenho geométrico dos telhados. Um pouco de neve ainda se vê. Minhas janelas, que se abrem para o céu, estão embaçadas. Por alguma fresta no telhado, um sopro de vento se assemelha ao uivar de lobos.

fotografia de Roberto David de Sanson Neto
A paisagem não tem foco. Procuro a beleza na névoa que abraça e sufoca o dia. Encontro-a, admiro-a, momentaneamente, mas desejo o brilho do sol tropical, o escandaloso das cores. Nem eu sei que sensação é esta que me faz sentir tão fora de lugar. Tudo muito exótico. 

Penso em Jorge Mautner e seu descrever da angústia. Acho que define meu momento. Um desejo de encolher, desaparecer, cair em outro lugar. 

Careço do colo da mãe, que tão nova se foi. Desejo o abraço do pai, o lugar conhecido, o pé descalço na terra, a legião de amigos, o pôr do sol do cerrado, os morros de Minas... 

Necessito de luz que me alimente os ossos e reanime os músculos. O corpo pesa. Não mais que a cabeça. 

A posição horizontal é a única que me convém. O grande colchão de espuma, cheio de almofadas, é o melhor que posso ter. 

O ar dentro de casa é seco. A calefação é um objeto estranho.

Não tenho desejo nem de sentir ódio da vizinha que perturba minha vida. Nenhuma vontade. Só este expirar angustiado. 

O amanhã parece que não vai chegar e este dia-noite se prolongará eternamente. 

Acendo muitas velas. Espalho-as pelo chão, sobre os tacos de madeira, miúdos e encerados. Deitada, contemplo-as. O olhar mergulha na luz. A realidade se esvai.  

As horas passam preguiçosas. Fumo um cigarro, outro e mais outros.

“Este papo seu tá qualquer coisa, você já está pra lá de Marrakech. Mexe qualquer coisa dentro doida, já qualquer coisa doida dentro mexe”.

Caetano canta. O sax chora. “Esse papo meu tá qualquer coisa e você já tá pra lá de Teerã”.
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(Dá licença para um parênteses, impossível reprimir o comentário... àquelas alturas, Soninha nem imaginava que muitos anos depois iria viver em Teerã na condição de embaixatriz brasileira no país. Fotógrafa de lente cheia,  fez belos registros do Irã, repare acima)
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A lua não se deixará ver. Como suportar a angústia de uma noite sem estrelas? Talvez elas me tirassem deste torpor. 
Alguma coisa me diz que assim não posso continuar. Não me reconheço. As pessoas, na rua, no bonde, nas lojas, nos parques, nos museus me despertam os piores sentimentos.

O estudo de alemão perdeu o encanto.

Preciso sair deste estado de espírito. 

É tempo de rever, reavaliar.

Tenho que aprender a entender os humanos do mundo em que agora vivo.

Nada de comparações. 

Aceitação, resignação. 

Busca do bom.

Como fugir do desânimo, que fazer com a raiva que explode? Como negar que desejo a morte dos velhos que não aprenderam com o sofrimento? Onde esconder o desprezo que sinto pela nobreza? Como fechar a boca para não xingar ou cuspir?


A água que sai da torneira é um bálsamo. Gelada, direto do degelo das montanhas para os canos. Ela espanta o sono quando lavo o rosto ao acordar, nem sempre de manhã. Sem a luz do sol nascente, não faço caso de horas. Não há muita distinção entre o nascer e o morrer do dia. 

A cortina do banheiro tem o desenho de uma teia de aranha. “A ciência da abelha, da aranha e a minha todo mundo desconhece”.
"Luz teimosa" (fotografia de Fernando Lemos)

O barulho da chave na fechadura tem o poder de espantar meu sofrer. Ele anuncia a chegada de quem aqui me mantém. Ele traz consigo sua luz. Ilumina a mim e a casa. Ele tem o poder de salpicar estrelas no meu céu, fazer o sol brilhar, a lua nascer... 


“...E a gente dança venerando a noite...” 

 “Gosto muito de você, Leãozinho...

Pra desentristecer  o meu coraçao tão só...


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terça-feira, 22 de janeiro de 2013

casal em dificuldades

 Martina Flor  (nome real) é  desenhista e ilustradora. Nasceu na Argentina, em Buenos Aires --, hoje vive em Berlim.  Seu primeiro livro chama-se -- "Quase estórias, novelas inacabadas sobre gente comum" --  e traz desenhos acompanhados de textos curtíssimos. Microcontos ilustrados, se preferir.  O segundo livro de Martina tem o título de "101 Quase estórias  sobre  casais" - e é baseado em personagens reais; "alguns mais próximos, outros mais distantes", esclarece.  Alguns dos tipos são pessoas com que ela compartilhou alguma parte de sua vida (amigos, noivos ou família). Com outros, apenas trocou algumas palavras, ou avistou pelas ruas e imaginou estórias.
As frases que acompanham as ilustrações não têm mais que 200 caracteres: pouco mais que um tuíte -- como esta, por exemplo
"Carlos e Elvira estão casados há 18 anos. Ela ama outro homem."
Pelo gosto de lidar com imagens, combinei algumas estórias inacabadas de Martina com fotografias retiradas da internet
"Ele ainda não sabe que ela vai partir seu coração"
"Susi e Roli brigam o tempo todo. Ela se queixa de que ele não a ouve"
"Ramona quer experimentar o sexo a três. Sem o marido."
"Mimi conheceu Paco nas férias. Amou-o profundamente durante um mês"
desenho e texto de Marina Flor

domingo, 6 de janeiro de 2013

Quem foi Juracy Magalhães?



Morávamos eu e o Cláudio, na rua que aparece ao lado, na praia de Santo André, em Santa Cruz Cabrália.  Ficamos lá por um tempo perto de seis anos. Sem endereço completo, sem carteiro, sem CEP – até o nome da rua era discutível.    Tem  morador que fala  “Rua do Telégrafo”, outros chamam de “Rua da Linha”.  Os dois nomes lembram o passado, antigamente a linha do telégrafo passava por essa rua.   Para evitar confusão era melhor dizer: moro na rua do Juracy – um nativo que todo mundo no povoado conhece – ou mencionar a  pizzaria da Joyce. Porém na conta de luz o endereço escrito é outro -- diz “Rua Juracy Magalhães s/n”. Esse Juracy da conta de luz não é o mesmo que mora na rua. É  um fulano que já morreu, dele só tenho idéia vaga – sei que foi militar e político poderoso: um personagem de cúpula da elite brasileira, quem sabe um tio ou avô do Antonio Carlos.

Descobri recentemente que  Juracy não era baiano verdadeiro – nascido em Fortaleza, fez carreira na Bahia após ter sido enviado por Getúlio Vargas para ser o interventor no Estado, em 1931. Na tenra idade de 26 anos: imagine o despeito despertado nos poderosos da política baiana, cuja autoestima  andava em queda desde que Salvador perdera a condição de capital do país. Chamavam o Juracy de “político imberbe” e “energúmeno interventor forasteiro”. Juracy estava apenas começando uma longa carreira para o topo das hierarquias.
 Ele era uma lenda  do “tenentismo”, a articulação político-militar formada por oficiais de patentes menores que, aliados às oligarquias do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais puseram em marcha a chamada Revolução de 30 e desmontaram o poder político do que conhecemos como  República Velha. Queriam o fim das fraudes eleitorais e do voto de cabresto,  clamavam contra a corrupção e contra as oligarquias carcomidas pelos vícios do poder.  Os tenentes acenderam esperanças no povo. Juracy chegou em Salvador para mandar, depois de se empenhar na queda de cinco governadores.  De lenços vermelhos, seus soldados foram recebidos com flores e festa popular. Os salões da sociedade baiana não gostavam do Juracy,  mas nas ruas ele era rei.  
Em 1930 quando Washington Luís foi deposto pelo golpe de Getúlio e dos tenentes, os gaúchos ataram seus cavalos no obelisco da Av. Rio Branco, no Rio de Janeiro
Juracy foi se acercando dos banqueiros, do clero, dos usineiros de açúcar, dos grandes fazendeiros. Era vaidoso, vestia-se com a elegância de um dândi, contrastando com o ditador Getúlio Vargas que colocava o cós das bombachas perto dos mamilos. 
Foi o responsável pela primeira prisão de Carlos Marighella, um dos baianos mais famosos do planeta. Marighella, estudante de engenharia civil e outros 513 universitários foram cercados no Terreiro de Jesus, onde se achava a faculdade de medicina. Os estudantes reinvidicavam a elaboração de uma Constituição democrática para o País -- gritavam contra o autoritarismo, proclamaram “Às armas, baianos!” e empunharam velhos fuzis de Canudos. Um homem foi morto.  Nelson Carneiro, um dos líderes da ocupação e futuro senador da lei do divórcio, foi detido e tomou uma surra de chicote e cano de borracha. Na cadeia por dois dias, Marighella compôs um poema atacando Juracy, que jamais o perdoou.
Marighella, como se sabe, morreu de tiro durante os anos de chumbo da ditadura militar. 
Já oJuracy... ah, este foi longe... li na Wikipedia  que ele
“ganhou uma casa de amigos, na capital baiana, no Monte Serrat  - a mesma onde seu filho, Juracy Magalhães Júnior, cometeu suicídio. Seu outro filho Jutahy Magalhães também foi político e seu neto Jutahy Magalhães Junior é deputado federal.

Sua trajetória política foi muito beneficiada pela proximidade com os militares. Exerceu os seguintes cargos: senador da República, deputado federal, adido militar e embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Ministro da Justiça e Relações Exteriores. Foi também o primeiro Presidente da  Petrobrás  e presidiu a Companhia Vale do Rio Doce"

Espero que um dia, quando o  povoado de Santo André ganhar nomes e números da prefeitura, batizem a nossa rua de linha, de telégrafo, de ingá, de juazeiro, qualquer árvore... mas nada de Juracy Magalhães, por favor...

domingo, 16 de dezembro de 2012

Santo André da Bahia: onde ficar onde comer (dicas do Ricardo Freire)

Acabei de voltar da praia de Santo André da Bahia, um lugarejo bonito onde vivi durante anos. Aqui neste blog continuo a guardar as matérias que aparecem nos jornais e nos blogs sobre o lugar. O escrito abaixo é do jornalista e doutor em viajaria Ricardo Freire: o dono do blog "Viaje na Viagem". Saiu em 9.12.2012
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"É a sua praia: se você quer sossego e comida boa
Não é sua praia: se você se incomoda com um mar que nem sempre estará superazul
Vai por mim: A balsa do rio João de Tiba deixa para trás a micareta permanente de Porto Seguro e entra em território de paz. Santo André é um oásis de sossego na Costa do Descobrimento: mesmo no Réveillon e até no Carnaval o lugar permanece a salvo do excesso de lotação. A praia é comprida e deserta: eventuais gatos pingados na areia indicam a localização das pousadas e do hotel. Um defeito? O mar só fica realmente azul na maré baixa, quando não está misturado às águas do rio.
Pousada Victor Hugo - EM FRENTE ao mar
 A maior qualidade? A perfeita integração entre nativos e forasteiros que se instalaram por ali – é isso que faz de Santo André um lugar tão especial. 
Alunos do IASA (foto de Cláudia Schembri)
Pegue praia no beach lounge Casapraia (excelente escolha também para almoçar), no bar de praia da Pousada Victor Hugo ou na barraca da excelente cozinheira Maria Nilza, em Guaiú (10 km). 
A vila tem excelentes restaurantes, como o inventivo El Floridita, na pousada Corsário, e o Gaivota, ambos debruçados no rio; o vero italiano Sant’Ana, na ruazinha beira-rio; os restaurantes das pousadas Jacumã e Vila Araticum, abertos ao público; e a Chácara do Céu, dos antigos donos da Casapraia, que realizam jantares especiais mediante reserva com antecedência. Às sextas-feiras há sessões de cinema na Casapraia. Às noites os locais costumam se encontrar no Sant’Ana, no Bar do Rio ou no shoppingzinho a céu aberto da vila. A região é própria para pesca oceânica (marlim azul) e para mergulho (nos corais do Araripe). O passeio mais bacana é ir a Belmonte (30 km), que tem um casario histórico (não tão bem conservado quanto o de Canavieiras) e lá pegar um barco para percorrer os canais do rio Pardo, no delta do Jequitinhonha.
Onde ficar: pé na areia você pode escolher entre duas ótimas pousadas, a clássica Victor Hugo e a caprichada Jacumã. A Casapraia tem um bangalô de arquitetura excepcional (mas leve em conta que fica perto do restaurante). A praia também tem um resort sui generis, o Costa Brasilis, que mais parece uma pousada espalhada em um grande terreno (entenda isso um elogio). Outras duas pousadas não ficam exatamente na areia, mas estão na praia: a Vila Araticum, na “quadra de trás”, e o bed & breakfast Banana da Terra, nos fundos da pousada Victor Hugo.
Na vila, à beira-rio, estão a pousada Corsário, a Ponta de Santo André e a Gaili.
Pousada Ponta de Santo André

10 km ao norte da vila encontra-se o hotel mais exclusivo da região, a Toca do Marlin, de apenas 10 apartamentos, enormes, construídos com materiais de luxo, e com um haras anexo.
Próxima à praia de Guaiú, a Canto da Reg costuma ter bons preços; é bom estar de carro se quiser curtir a vila.
Como chegar: saindo de Porto Seguro pela orla norte, em 30 km você chega a Santa Cruz Cabrália, onde pega a balsa que leva 10 minutos para atravessar o rio João de Tiba. A vila de Santo André fica 3 km adiante. Do centrinho é possível entrar na praia e seguir caminhando pela areia; mas é melhor chegar à areia pelas pousadas e restaurantes.'
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sábado, 8 de dezembro de 2012

profissão diplomata: uma crônica de Sonia Bonzi

Quando abri a caixa de entrada hoje achei um presente de Sonia Bonzi, uma amiga que atualmente reside em Túnis. Esposa de diplomata (um embaixador) ela de vez em quando nos brinda com um relato sobre a movimentada trajetória de quem já morou em cada esquina do mundo. Desta feita, são memórias vívidas dos anos passados em Viena.
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Viena, a capital musical da Europa (foto internet)
"Muitas vezes, para matar as horas, sento-me nos bancos da Catedral de Santo Estevão, medieval, magnífica, cheia de glórias e fuligem dos séculos. Ali passo em revista as imagens dos santos, o que sobrou dos vitrais. Envolvo-me na luz fosca das velas, deixo o som do órgão reverberar em minh’alma e, mesmo sem fé, rezo. Peço sabedoria para enfrentar os desafios da nova vida. 
Caminho pelas ruas, admiro a graça das fontes, o romântico das ruelas, o charme dos prédios, a limpeza das ruas, a educação dos motoristas, a obediência dos pedestres...
Incontáveis vezes me sento sozinha no Café Demel, no Kohlmarkt. Tomo um espresso cheiroso e denso, como a famosa “Sachertorte” ou uma “Apfelstrudel”. A beleza do ambiente, o doce da torta, tornam mais suportável o azedume das garçonetes mal humoradas - velhas e gordas.
Roy Lichtenstein
Outro dia, ao voltar da aula de alemão, assisti a uma cena traumática, que me fez perder o desejo de sair de casa, de apreciar as belezas da cidade. O bonde estava cheio. Um casal de iugoslavos discutia em servo-croata. Falavam em voz alta. Parecia briga de marido e mulher. Depois de alguns minutos, o homem, muito irritado, fez estalar um tapa no rosto da companheira. Os passageiros, já incomodados com a discussão, começaram a aplaudir, entusiasticamente. Quando o bonde parou, o casal desceu desconcertado. Desci atrás deles, apesar de estar ainda longe do meu prédio. Caminhei pelas ruas, atônita. Jamais vira coisa semelhante. A manifestação da massa me foi mais inaceitável do que a reação do homem, e eu tive medo de continuar a dividir o mesmo espaço com aquelas pessoas, as mesmas que no final de concertos magníficos só eram capazes de uma ovação contida.
Caminhei umas seis quadras e baixinho cantei:

“Eu quero ir minha gente,

  Eu não sou daqui

  Eu não tenho nada...”

Chegar em casa foi um prazer. Tirei os sapatos, joguei os livros sobre a mesa e deixei meu corpo tombar sobre a grande espuma, que servia de sofá na sala. A cena do bonde me torturava. Um misto de medo e ódio era o que eu sentia. 
O povo que ovacionou Hitler ainda ofende os trabalhadores braçais vindos dos países do Sul da Europa, em especial, da Iugoslávia. Chamam-lhes “iuques”, com desprezo e desrespeito. Meu marido, com seus cabelos negros, se usa terno e gravata, é bem tratado. Vestido com jeans e camiseta é olhado com suspeita. Pode ser um iugoslavo, um italiano do sul, um grego... 
A brancura de minha pele, que sempre me incomodou, é, em Viena, um escudo. Por ela não sou muito discriminada. Um nobre, de estirpe local, me aconselhou a esconder minha origem mestiça. Disse que eu podia passar por europeia. Logo eu, que me orgulho tanto desta mescla de preto-índio-português-espanhol-italiano-judeu...
os Fachinis e amigos no deserto da Tunísia (foto de Sonia Bonzi)
Ao pôr os pés fora da porta do apartamento sinto medo. Fico esperando por alguma repreensão e me preparo para brigar. 
Em minhas saídas descobri, com surpresa, curiosidades da cultura local. Fazem compras para as necessidades de cada dia: um bife pequeno, uma batata, um tomate... Nada de estocar, comprar para a semana, para o mês... 
Os velhos moram e morrem sozinhos. Os filhos, com muita antecedência, pedem permissão para fazer uma visita no dia de Natal. Muitos restaurantes não aceitam crianças, mas têm vasilhinhas de aço inox para os cães bem educados, que vêm com seus donos. Há um horror a crianças. Mulheres grávidas quase não se vêem. Muitos prédios não alugam apartamentos para casais com filhos.
 David Hockney

Voltando um dia para casa, cheia de sacolas, sentei-me no bonde. Na parada seguinte entrou uma senhora com uma bengala na mão. Começo a juntar minhas compras para ceder-lhe o lugar. Antes que eu tivesse tempo de me levantar, levei uma bengalada na canela e ouvi um grunhido acusatório. Perdi o juízo. Depositei meus pertences no chão e, atrevidamente, disse para a velha senhora que eu não ia mais lhe dar meu lugar, que ela deveria já ter morrido há muito tempo, que fosse para o inferno. 
Outra vez desci antes do ponto. Meu desejo era o de tomar a bengala da anciã e dar-lhe boas cacetadas. 
Tanta agressividade dentro de mim me faz mal. Optei por hibernar. Ser filha única me ensinou a estar só. 
... “Eu não sou daqui”...
Viena pouco corresponde às minhas fantasias. Muito mais sapo do que príncipe. Em vez de Sissi e Franz Josef encontro nobres trabalhando. Uma princesa vende sapatos e bolsas em uma lojinha no Lugeck. A realeza falida vai aos coquetéis nas embaixadas para comer e beber de graça. Um conde me contou que vive em apartamento pequeno por não ter como manter seu castelo. Tudo tão decadente!...
As noites terminam às dez, no máximo, às onze horas. Um programa é ir ao parque de diversões Prater. Música animada, muita cerveja, vinho quente e alguma vida. As pessoas comem pipoca, algodão doce, maçã do amor, castanhas... Turistas e imigrantes são maioria. Há mais descontração.  Uma imensa roda-gigante tem vagões de bonde em vez de cadeiras. Dela vê-se quase toda a cidade, o brilho das torres douradas, os contornos do rio e das montanhas. 
Eu gosto dos cenários. 
Minhas dificuldades são com o elenco e a platéia."
Viena, 1974
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outra crônica de Sonia Bonzi pode ser encontrada aqui