domingo, 26 de agosto de 2012

mudar tudo para não mudar nada


Filme "O Leopardo" de Luchino Visconti, com Cláudia Cardinale
O título do post remete a "Il Gattopardo" , romance do escritor Tomasi di Lampedusa, um nobre italiano. O livro popularizou-se na Itália; nele Lampedusa retrata a família do príncipe de Salinas, cujo brasão ostenta um leopardo -- daí o título do livro. Os acontecimentos se dão na época do Risorgimento, o movimento da história italiana de unificação do país (entre 1815 e 1870). Garibaldi e nossa Anita são heróis neste período. Talvez o trecho mais memorável do livro seja o discurso do simpático sobrinho do príncipe de Salinas, o Tancredi, um príncipe também, só que arruinado e oportunista. Tancredi incita seu tio cético e conservador a abandonar sua lealdade aos Bourbons e aliar-se aos Saboia
Cquote1.svg A não ser que nos salvemos, dando-nos as mãos agora, eles nos submeterão à República. Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude."
Tancredi sabe ou presume que a mudança será apenas   aparente  e que os privilégios da aristocracia serão mantidos. 
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Em outra instância, lembro de ter escutado diversos terapeutas comentar que muitas pessoas que fazem terapia, na verdade, não desejam mudar. Ou melhor: querem mudar alguma coisa, mas não a essência.

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Acho que a fábula de Millor Fernandes reflete bem esta situação, com o humor que lhe é típico...
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"Olin-Pin, abastado negociante de óleos e arroz, vivia numa imponente mansão de Kin-Tipê. Sua posição social e sua mansão só não eram perfeitas porque, à direita e à esquerda da propriedade, havia dois ferreiros que ferravam ininterruptamente, tinindo e retinindo malhos, bigornas e ferraduras. Olin-Pin, muitas vezes sem dormir, dado o tim-pin-tin, pan-tan-pan a noite inteira, resolveu chamar os dois ferreiros e ofereceu a eles mil ienes de compensação, para que ambos se mudassem com suas ferrarias. Os dois ferreiros acharam tentadora a proposta (um iene, na época, valia mil dólares) e prometeram pensar no assunto com todo empenho. E pensaram. E com tanto empenho que, apenas dois dias depois, prevenidamente acompanhados de advogado, compareceram juntos diante de Olin-Pin. E assinaram contrato, cada um prometendo se mudar para outro lugar dentro de 24 horas. Olin-Pin pagou imediatamente os mil ienes prometidos a cada um e foi dormir feliz, envolvido em lençóis de seda e adorável silêncio. Mas no dia seguinte acordou sobressaltado, os ouvidos estourando com o mesmo barulho de sempre. E quando ia reclamar indignadamente pela quebra do contrato, verificou que não tinha o que reclamar. Os dois ferreiros tinham cumprido fielmente o que haviam prometido. Ambos tinham se mudado. O ferreiro da direita tinha se mudado pra esquerda, e o da esquerda tinha se mudado pra direita."
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MORAL: Cuidado quando a esquerda e a direita estão de acordo

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

carta para um amigo de santo andré da bahia


Caro amigo,
Depois de tanto tempo ausente passei hoje no redefurada e vi que você havia se tornado o mais recente membro do blog, o de número 118 – uma categoria especial de visitante que se dá ao trabalho de colocar seu nome clicando na faixa azul onde se lê “participar deste site”. Acho esta atitude tão gentil que anoto todos os nomes cuidadosamente numa folha à parte.   Já fui muitas vezes visitar as páginas dessas pessoas na calada da noite – a maioria desconhecida na vida real – mas raramente deixo recado, gosto de olhar em segredo.
Quero lhe dizer que essa última viagem para o povoado de santo andré foi particularmente significativa. No início uma sensação de perda -- quando abraçava uma pessoa tinha um desgosto de despedida, quando olhava para o rio pensava que ele não chegaria ao mar, e que as folhas cairiam das árvores a qualquer momento sob a chuva de um vento leste valente.  O espírito aos poucos foi se acalmando, comecei a me sentir em casa novamente – e o mais estranho – mais em casa do que quando eu morava lá. É que fui compreendendo de uma vez por todas que pertencer a um lugar é um sentimento íntimo que não precisa de passaporte nem de carteira de habilitação. É uma questão de identidade, de sintonia, não carece da autorização de ninguém.  Nem exige exclusividade.  Dentro de nós – você que o diga, tão viajado que é – vão se ajeitando pedaços de cidades, de muros, de raízes, de olhos de gente.
Um mapa-múndi de memórias, sonhos e reflexões.
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Abraços, e até a próxima curva da estrada.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Santo André (Bahia) Dicas de viagem

"Para quem planeja tirar férias, a cidade de Santo André, na Bahia, é uma das melhores pedidas. É possível conhecer pessoas de todos os lugares na cidade, encontrar festas, ótimos restaurantes e bares com tipos de comida e música variados, além das mais belas e exóticas praias.
Além disto, é possível fazer mergulho em corais de Araripe e Coroa Alta, pesca oceânica em Royal Charlotte Bank, além de passeios de jipes pelas prais, com paradas para almoços em vilas de pescador.
Santo André, na Bahia, é uma cidade litorânea conhecida pelas suas grandes e bem frequentadas festas e suas exóticas praias. É uma das cidades mais requisitadas do sul da Bahia, em temporadas de férias, e possui um bom suporte para turistas, que são nacionais ou, muitas vezes, estrangeiros.
Santo André conta com as festas e praias mais badaladas do sul da Bahia, além de ser rica culturalmente: é possível encontrar bares tailandeses, indiano, baiano… Tudo isto graças a grande quantidade e variedade de pessoas que frequenta o lugar: é fácil encontrar pessoas de todas as nacionalidades ou de todos os estados brasileiros conhecendo a cidade.
A cidade possui construções típicas baianas: muito coloridas e conta com um bom calçamento e bastantes bares e restaurantes de estilos variados: você encontra desde luau, à música eletrônica e axé: tudo ideal para uma boa temporada de férias.

Santo André, na Bahia, por ser uma cidade litorânea, conta com muitos quiosques e restaurantes de peixes e frutos do mar, o maior destaque da cidade, embora seja possível encontrar bares de comidas tailandesa, indiana e comidas típicas baianas.
Santo André é muito conhecida por suas exóticas praias, que são próximas a rios, mangues, mata Atlântica nativa, recifes e coqueiros. Muitas são semi-desertas e possuem piscinas naturais. Grande parte delas conta com quiosques prontos para servir comidas tipicamente praianas.
Destaques para: Praia das Tartarugas que conta com piscinas naturais, areias grossas e muitos coqueiros. Taípe, a praia mais selvagem e reclusa da cidade, que conta com enormes falácias e nuances, é boa pedida para quem quer algo mais calmo e reservado. Há também a praia de Ponta de Santo Antônio, que possui águas claras, ondas fracas e muitos coqueiros. Mogiquiçaba, com muitas aves marinhas, indicada para prática de surf e, por último, a Ponta de Santo André, deserta e indicada para banhos, pesca, mergulho e atividades náuticas em suas águas turvas.
Por ser uma cidade bastante turística e visitada, é muito fácil encontrar vários tipos de hotéis, pousadas, resorts, etc, com preços e estilos variados por toda a cidade. Há hotéis familiares, hotéis dedicados exclusivamente a turistas e alguns possuem até pacotes e atividades especiais para feriados,
Belmonte, uma cidade histórica um pouco distanciada do centro de Santo André, apresenta a arquitetura típica da cidade do século XIX, tempos do cacau. É possível observar diversos tipos arquitetônicos presente na cidade e aprender um pouco sobre a história do local e da Bahia comoum todo"
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A matéria acima, juntamente com as fotos, foram copiadas deste site de viagens
http://www.viagemnaboa.com/destinos/santo-andre-guia-de-viagem-dicas-e-onde-ficar
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Contém alguns elementos fantasiosos como "passeios de jipes pelas praias" (a circulação de carros na praia é proibida) e essas festas indianas e tailandesas... O autor se confundiu.
Santo André tampouco se notabiliza pelo axé... Você precisa ir lá para ver e sentir pessoalmente.
É LINDO, seus moradores são simpáticos e hospitaleiros, é um local bem tranquilo.
Boas férias.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

ontem não te vi em babilônia

Tens razão, não pude comparecer ao encontro marcado, precisava viajar para a Armênia em missão: DETRAN. Transferir um automóvel registrado na Bahia para a cidade de São Paulo. Preparei-me de antemão lendo as instruções "passo-a-passo" que encontrei na rede. Foram cinco horas de formulários, carimbos, pagamentos de taxas, vistoria e absurdos - Kafka teria ficado feliz. Uma das etapas era decalcar os números do chassis e do motor do veículo - essa tarefa é feita por dois sujeitos estacionados na calçada lateral; foram eles que preveniram:
- Cuidado com os vistoriadores novos; não estão aceitando os decalques, exigem um laudo fotográfico que custa uma nota
Dito e feito: o vistoriador do Detran quis ver as fotografias do motor. Meu marido argumentou que chegara há pouco da Bahia, não sabia andar direito em São Paulo, tudo é tão difícil por aqui...funcionou (em parte)
- Então vocês precisam ir até o cartório do Bom Retiro fazer uma declaração da proprietária dizendo que se responsabiliza pelo número do motor que consta no decalque
Igreja Armênia, na Avenida Santos Dumont (foto da internet)
Três ruas  na direção da Igreja Central Armênia, vira pra esquerda, continua até o número cinquenta e sete: chegamos no cartório. O atendente magrinho de óculos grossos é dessas pessoas que preferem dificultar a vida dos cidadãos; foi logo afirmando que a identidade estava danificada, não servia. Mostrei a carteira de habilitação. Servia.  Preenchi o cartão com as assinaturas de reconhecer firma e assinei a declaração para o Detran na frente dele.
- Não confere.
-  Comassim? moço... você mesmo me viu assinando aqui no balcão...
Foi preciso repetir tudo, cartão e declaração. Na hora de pagar o serviço, a pergunta inusitada do caixa
- Cadê a segunda via da senha?
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A história é enfadonha, malgrado o final feliz: no último instante conseguimos entregar a papelada no guichê dezessete cujo rosto atrás do vidro nos deu um protocolo para pegar a nova documentação e a placa do estado de São Paulo. Fica pronto em dois dias.
Affffffff
A burocracia é inimiga da solidariedade.
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A estação de metrô Armênia é uma homenagem da cidade de São Paulo aos imigrantes  que para cá se dirigiram no começo do século vinte fugindo do genocídio praticado pelos turcos. Na década de 1980, uma grande mobilização da comunidade armênia conseguiu convencer o então governador Franco Montoro a alterar o nome da Estação Ponte Pequena do metrô para Armênia, que a esta altura já era associada pelos paulistanos com este povo devido à concentração de moradores e estabelecimentos comerciais armênios na vizinhança.
Um grande quadro expõe os nomes daqueles que ajudaram financeiramente na construção da igreja. Os sobrenomes dos armênios terminam sempre com IAN
(revista Época)
Em 12 de novembro de 1985, a nova Estação Armênia foi inaugurada. Há referências ao povo, como a inscrição de poemas no idioma ancestral e duas khatchkarer (cruzes de pedra) do lado de fora, acompanhadas do alfabeto armênio.
O colorido dos afrescos e os lustres de cristal chamam a atenção. Ao lado do altar, estão as imagens de Judas Tadeu e Bartolomeu, os santos que levaram o cristianismo à Armênia. No centro do altar, uma Madona com o menino Jesus, comum em igrejas armênias. 
(Época)

terça-feira, 24 de julho de 2012

andar na rua em são paulo


"Os gêmeos"
Saiu para comprar café na padaria da esquina quando deu de cara com um pequeno aglomerado de pessoas de pescoços esticados para o céu. Acompanhavam com os olhos a trajetória de queda de um balão preto desgovernado. Dois rapazes subiram correndo a ladeira da Rua Dona Avelina; ao passar pelo grupo jogaram o porteiro magricela do prédio  verde contra o portão do edifício.  Um automóvel branco passou zunindo, vindo da rua transversal. O motorista ensandecido cuidava do volante só com uma mão – a outra segurava um revólver. O passageiro do banco da frente também empunhava uma arma de fogo e tinha metade do corpo para fora do carro.  A dupla pedestre retrocedeu com medo das balas: o balão-troféu foi enfiado no banco de trás do veículo.  
Foi-lhe explicado pelos demais que a cena não é rara – os balões são motivo de disputa entre grupos rivais da periferia paulistana. Acompanham o balão até o local da queda. Quem chegar primeiro...  Momentos depois perceberam que outro balão vinha caindo lentamente nas proximidades.
Voltou pra casa sem café, sem pão e sem balão.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

álbum de fotografias

Avenida Paulista
"Não sou Ninguém! Quem és tu?
Tu és - Ninguém - Também?
Então somos um par?"
(Emily Dickson, poeta americana)
Corpos presentes - CCBB

diálogo mudo
definições do Aurélio: levar o cano = mau negócio

sessão livro de cabeceira, último dia da FLIP
o espanhol Vila-Matas leu um poema
de Álvaro de Campos
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"Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco"
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a estrada de Sintra não passa pelo Chile
o carro não era um chevrolet
nem esta pessoa se chama Fernando
(é tudo mentira)

sábado, 14 de julho de 2012

Olympia, de Edouard Manet

 Texto do cineasta Cacá Diegues, publicada no jornal "O Globo", em 2010 
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 "Em 1865, o quadro "Olympia", do pintor Edouard Manet, pai do impressionismo, foi recusado pelo Salão de Belas Artes de Paris. Exposto então no Salão dos Recusados, "Olympia" provocou escândalo sem precedentes. O quadro retratava uma mulher nua deitada na cama, enquanto uma criada negra lhe traz flores e um gato preto, aos pés da moça, nos encara do canto direito da tela. Além de mal pintado, um borrão de cores, atentado à boa pintura de uma época neoclássica, paródica e acadêmica, "Olympia" foi acusado também de indecente e pornográfico. Jornalistas e escritores zombavam de Manet, professores e estudantes de Belas Artes indignavam-se com ele, mães de família em passeatas cobriam o quadro para que não fosse visto. Paris inteira linchava "Olympia".
Somente o escritor e jornalista Émile Zola ousou defender publicamente o pintor e sua obra. Num artigo em que anunciava o nascimento de uma nova arte e de uma nova moral na produção artística francesa, Zola só lamentava a presença do gato preto no canto da tela que, segundo ele, servia apenas como ornamento desnecessário, elemento de distração no rigor poético da composição. Diante do clamor geral, o diretor de seu jornal exigiu que Zola se retratasse e, como o escritor se recusasse a fazê-lo, foi despedido e viu as portas de todos os jornais franceses se fecharem para ele. Manet, como agradecimento por seu gesto, pintou-lhe então um retrato que se encontra exposto no Museu d"Orsay, ao lado do "Olympia".

 Nesse quadro, Zola está a escrever, cercado de livros e, na parede do cômodo, o pintor reproduziu o "Olympia", sem o gato preto no canto da tela."

quarta-feira, 4 de julho de 2012

O valor dos livros

"O filósofo lendo" tela de Jean-Baptiste Chardin, 1734
Em tempos de FLIP, a Festa Literária Internacional de Paraty, a leitura, as palestras, os colóquios e debates têm preenchido meu tempo completamente. Para comentar esta atividade tão gostosa e enriquecedora -- a leitura -- trouxe para cá este artigo escrito por um professor de literatura (blog "O magriço cibernético) onde ele comenta este quadro de Chardin.
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"O primeiro elemento que deve merecer destaque é a roupa do leitor. É importante notar que ele usa uma vestimenta formal, como se tomasse parte de um cerimonial, de um culto. Tanto que porta um chapéu, o que transmite, no contexto, um ar sagrado ao ato que está realizando. Reforça ainda essa atmosfera solene a expressão compenetrada da personagem, o seu alheamento em relação ao que a cerca, além do silêncio que domina o ambiente. Todos esses ingredientes nos ensinam que a leitura é um ato sério, de concentração quase sagrada, pois só assim alcançará eficiência. Infelizmente, são elementos que estão se tornando raros nas gerações atuais, extremamente dispersas e desfocadas. Dominar essas habilidades, portanto, garante uma enorme vantagem diante da mediocridade que impera o pensamento atual.
O segundo elemento importante é a ampulheta, no canto inferior esquerdo do quadro. Ela instala um interessante e poderoso paradoxo. A começar, esse instrumento, que representa a brevidade do tempo humano, se for deitado, vai lembrar o símbolo do infinito. Efemeridade e perenidade em um mesmo objeto. A conjunção dessas qualidades opostas coloca em foco grandes questões ligadas à leitura. A primeira é a de que o tempo que escorre, o qual marca tanto o fluir da vida do leitor quanto o da leitura, evoca a grande e prazerosa angústia do intelectual – a incompatibilidade entre o tanto que se quer ler e o pouco de tempo que se tem de vida para isso.
Outro ponto interessante nesse aspecto temporal é o diálogo entre eterno e passageiro na relação entre o leitor e a leitura. O homem tem uma existência breve, ainda mais quando comparado com a duração das ideias que são veiculadas por um livro. Entretanto, é esse bicho da terra tão pequeno e efêmero que, por meio da degustação de um texto, acaba dando eternidade ao que está em uma publicação. Em suma, esta é superior ao homem, pois o supera em durabilidade; entretanto, essa superioridade só é possível pelo fato de existir alguém, ainda que fugaz, que leia esse volume.
Por fim, o terceiro elemento que merece destaque é o bico de pena que se encontra ao lado da ampulheta. Ele revela que o leitor não assume uma postura passiva de mero receptáculo do que é apresentando pelo livro. Muito ao contrário disso, sua atitude é ativa, pois demonstra uma disposição a fazer anotações, a concordar, a discordar, a resumir, a acrescentar. Ratifica o postulado de que um intelectual lê escrevendo. A verdadeira leitura se faz com escrita. Quem lê bem escreve bem. Quem escreve bem lê bem. Impossível admitir o contrário.
A aceitação de todos esses elementos expostos aqui – nunca é demais repetir – é condição essencial para que a leitura se realize de maneira eficaz, contribuindo para o desenvolvimento do homem em sua plenitude cognitiva e afetiva."

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Vida de aposentado

A história seguinte foi contada com graça e fina ironia por um colega aposentado do Banco Central, o Gerson Bonani.  Me fez dar risadas; e rir -- todo mundo sabe -- é o melhor remédio.
Gerson ainda nem sabe que foi blogueiro convidado aqui do redefurada...
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"Foi uma questão de apenas dez minutos...
Quando saí, um policial já estava preenchendo uma multa por estacionamento indevido.
Rapidamente, me aproximei dele e lhe disse:
- Vamo lá, seu guarda, eu não demorei mais que dez minutos...! Deus irá recompensá-lo se tiver um pequeno gesto de consideração para com um aposentado...
Ele me ignorou completamente e continuou a preencher o formulário.
A verdade é que me impacientei um pouco e lhe disse que devia ter vergonha pela desconsideração.
Ele me olhou friamente e, sem titubear começou a preencher outra infração.
Então eu levantei a voz para lhe dizer que já tinha percebido que estava lidando com um tira insensível e que eu nem compreendia como é que ele tinha sido admitido na polícia de trânsito...
Ele terminou a segunda infração, colocando-a no para-brisa, e começou a preencher uma terceira infração.
Eu já o estava argumentando há mais de 20 minutos, chamando-o de tudo, desde babaca a outros impropérios nada elogiosos..
Ele, a cada insulto, respondia que era uma nova infração minha e, consequentemente, preenchia mais uma multa, acompanhada de um sorriso que refletia sua inteira satisfação de "otoridade sádica"...
Depois da décima infração... eu lhe falei:
- Nada mais a dizer, seu guarda. Tenho que ir embora... Ali vem meu ônibus! "

domingo, 10 de junho de 2012

Ulisses, de James Joyce


A maleta está pronta: embarco na terça para Jamesjoyce Town -- um espaço transitório que se instalará no auditório Dois Candangos, da Universidade de Brasília, de cujo site puxei a matéria abaixo.
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Evento celebra 90 anos de Ulisses
Universidade realiza homenagens, na próxima semana, aos 130 anos de nascimento do escritor irlandês que escreveu um clássico da literatura mundial
Francisco Brasileiro - Da Secretaria de Comunicação da UnB

"No ano em que a publicação do livro Ulisses de James Joyce completa 90 anos, a UnB participa das homenagens ao escritor irlandês que acontecem no mundo inteiro. A partir da próxima terça-feira, 12 de junho, o evento "BLOOMSDAY BSB 2012 – CêEmana BLOOM: 90 anos de Ulysses e 130 de nascimento de Joyce" vai ressaltar os aspectos revolucionários da obra, que mudou a forma de construir narrativas no século XX. Augusto de Campos, expoente do movimento concretista de poesia e um dos primeiros tradutores da obra para o português, estará na quinta-feira na UnB para um bate papo sobre a obra do autor.
  “O Bloomsday já ocorre aqui em Brasília desde 2007, mas desta vez vamos promover um simpósio crítico durante toda a semana”, explica Piero Eyben, professor do Departamento de Teoria Literária e Literatura (TEL) e um dos organizadores do evento. O Bloomsday acontece todos os anos no dia 16 de junho. Em todo mundo, os fãs do autor rememoram os eventos de um dia da vida do personagem Leopold Bloom, descrito no livro Ulisses. Segundo Piero, o evento também será uma celebração dos 50 anos do Instituto de Letras.

NOVO PARADIGMA - “Ulisses é um dos maiores clássicos do século XX. O livro mudou todas as estruturas da literatura até então”, explica. “Ele quebra a estrutura linear e constrói 18 formas narrativas novas”. O livro, com mais de 800 páginas, relata um único dia da vida dos personagens. “Ele é o primeiro que desenvolve a técnica do monólogo interior, em que a narrativa acompanha os pensamentos dos personagens”, conta o professor.
  O evento contará também com a presença de dois professores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Dirce Waltrick do Amarante e Sérgio Medeiros, especialistas na obra de Joyce. Além disso, haverá também exibição de filmes, debates e mesas redondas. Em uma delas o professor Edvaldo Bérgamo, do TEL, vai relacionar a obra de Ulisses a outros autores da língua portuguesa. “A ênfase será em Fernando Pessoa e Antonio Lobo Antunes, que também desenvolvem em suas obras a noção de fluxo de consciência, do lugar do artista na modernidade e a relação tensionada entre linguagem e realidade, aspectos presentes na obra de Joyce”, explica Edvaldo.
ilustração de Catarina Sobral
PERFORMANCE - O início das homenagens acontecerá no Auditório da Reitoria. As demais atividades serão realizadas no Auditório 2 Candangos, na Faculdade de Educação. No dia 16, uma performance vai encerrar as comemorações do Bloomsday. Os atores André Ardens, Antonella Kalavati, Carla Branco, Rafael Toscano, Tiago Lanuck e Wilton Oliveira encenarão a peça “O Bordel de Dona Circe”, que corresponde ao capítulo 15 de Ulysses".

terça-feira, 5 de junho de 2012

viagem com filho

 (fotos de Pedro Guida)

Ela saiu de casa vestida de notas musicais; ele deixou o prédio com maleta de viagem.  Ao lado dela, o companheiro de uma vida; no carro dele, três amigos da faculdade.  Cinco horas e trezentos quilômetros separavam os dois grupos. Haviam marcado encontro no Festival de Jazz de Paraty, uma festa que acontece há quatro anos – sempre em maio – na pequena cidade litorânea.  Os palcos estavam espalhados pelas ruas pedregosas do centro histórico: o mais bonito fica em frente à Igreja Santa Rita: o público sentou ao ar livre, no gramado, no embalo do suingue. Ali perto, o porto provisório, a tarde evanescente e o mar eterno. 
Quando chegaram ao Palco da Matriz Cinthya Girtley cantava acompanhada de sua banda gospel -- a música vinda dos evangelhos que ajudou a moldar toda a música negra do século passado nos EUA - ragtime, blues, jazz...  O som era ótimo, envolvente, o que não impedia a mulher de checar o celular continuamente: e se o filho ligasse da estrada?  Em dado momento viu que havia duas chamadas perdidas: reconheceu o número, tão familiar. Discou, ele atendeu de pronto. A mulher não conseguia ouvir bem, o filho pediu para ela se afastar do palco, procurar um lugar menos sonoro. Ela foi para a frente da Matriz, o único lugar razoavelmente silencioso naquele momento cheio de bares, restaurantes e vozes. Sons de festa caíam sobre a praça. Ainda colocou o celular no ar, para que o filho sentisse a vibração... No outro lado do telefone, o cenário era totalmente diferente: a estrada escura, estreita, sinuosa, chuva forte, o chão cheio de buracos cobertos de água. O carro deslizou...
Estamos bem, não aconteceu nada conosco, mãe
Mãe, não aconteceu nada conosco, estamos bem

O acidente foi perto da divisa que separa os estados de São Paulo e do Rio de Janeiro; ali há uma curva com lúgubre número de desastres. O casal saiu do show imediatamente; pegaram o rumo da estrada. Ela só via os pingos grossos batendo no parabrisa do carro -- numa espécie de hipnose.  A mão do marido apertando a sua.  De súbito eles surgiram um tanto indistintos pela névoa da água. Estavam embaixo de uma árvore: os quatro jovens, intactos, nem um dedinho quebrado, nada de mal lhes acontecera, afora o susto. Do outro lado da estrada, o carro irreconhecível com as quatro rodas para cima: só conseguiram sair de dentro do veículo com a ajuda das pessoas que pararam para socorrer: solidariedade de estrada. Para o mundo, foi só um pequeno milagre: acontece todo dia. Para a mãe, ver o filho e os amigos ilesos, foi de uma felicidade tamanha que talvez a foto abaixo, da cantora Yanel Naim consiga ilustrar
Aleluia! 

segunda-feira, 4 de junho de 2012

na fila da FLIP - Festa Literária Internacional de Paraty

Neste ano da graça de 2012, a FLIP dura quatro dias e terá início bem na data da independência dos EUA - 4 de julho. Um mês antes, ou seja, hoje, os ingressos foram postos à venda na rede e, pra quem mora em Paraty, numa determinada agência de turismo na rua principal do comércio da cidade.  Existe uma modesta reserva de mercado para os moradores locais; dez por cento, informaram. O início das vendas foi programado para as 10hs. Quem chegava antes pegava uma senha; ganhei o número 46. O número um, descobri durante a espera, chegou às 5 da manhã. A moça da organização avisava que haveria duas filas, "uma preferencial, para os idosos, e outra para os normais". Ri demais com isso...a maior parte do público esperante era de velhinhos! Além disso  parecer "normal" é a coisa mais fácil do mundo. Ela também riu do deslize linguístico, era jovem e bem humorada, muito diferente de um casal de rabugentos que questionou meu direito de estar na frente deles (portavam o 51). Só porque me ausentei da fila para tomar um suco, comprar uma pinça de sobrancelhas, depois tive que correr até a agência do Banco do Brasil para sacar em moeda viva porque não estavam aceitando cheques como forma de pagamento... Afinal, para isto existe senha, penso.

Consegui todas as palestras que queremos ver/ouvir, além do show do Lenine e da ciranda de Tarituba. No pacote, a conferência do meu querido catalão Enrique Vila-Matas, para procurar entender essa dobra sobre si mesma que ele faz da Literatura. Ou ter notícias dos livros do espanhol Javier Cercas e do colombiano Juan Gabriel Vásquez que se voltam para episódios violentos do passado de seus países, ou a reflexão de Luiz Eduardo Soares e Fernando Gabeira sobre o autoritarismo, tão oportuno em época de criação da Comissão da Verdade; o mundo de Shakespeare; as palestras sobre o homenageado deste ano, o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade; o prêmio Nobel francês Le Clézio;  ou um painel focado em cidade e democracia ...
"Ao mesmo tempo que mostram o potencial de mobilização dos meios digitais, protestos recentes no mundo árabe e nos países europeus reafirmam a força da rua e da praça como palco de manifestação da vontade popular. O espaço urbano pode ser um local de encontro e convivência das diferenças, mas também a expressão mais visível da desigualdade social. A partir dessa contradição, o indiano, radicado nos Estados Unidos, Suketu Mehta, e o brasileiro Roberto DaMatta discutem o papel das cidades na vida democrática"
(trecho do catálogo da FLIP)
Literatura& afins: aqui vamos nós.