sexta-feira, 7 de junho de 2013

a vida em Paraty



Encontrei uma brasiliense nas aulas de yoga na praia do Jabaquara -- Márcia Lage. Como eu, ela também se mudou para Paraty no ano passado, vinda da capital federal. Foi como encontrar uma conterrânea, pois Brasília é uma das  cidades importantes de minha vida. Ganhei a permissão da Márcia para postar um texto dela (abaixo)
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"Inventário do envelhecimento

A conversa era sobre preconceitos e minha amiga, 17 anos mais moça que eu, saiu com essa:  “....Até velhas de olhos verdes como você são vítimas de preconceito”. Como assim, basicamente? Preconceito porque sou velha? Ou porque tenho olhos verdes? Ou porque, apesar dos olhos verdes, sou velha?  
Não entendi a relação, mas como a palavra “velha” dói feito um preconceito em quem já passou da primeira metade da vida (considerando que a primeira metade termina aos 50, não mais aos 40, como antigamente), passei uma noite em claro. De manhã, considerei que toda aquela cara amassada diante do espelho era resultado da insônia.
 Fui para a aula de Yoga e, tirando uma dificuldade aqui, outra ali, estava tão flexível e leve quanto as garotas de vinte ao meu lado. Aliás, aquele gatinho de vinte e cinco, no máximo, estava tão travado que, perto dele, eu era uma bailarina chinesa.  Perscrutei minha alma durante o alongamento, e não encontrei nenhuma ruga. Meu coração, também, estava intacto, cheio de boas emoções.

Então voltei para casa, num indescritível estado de serenidade, e olhei novamente no espelho. A  cara continuava amassada. Peguei a câmera fotográfica, virei a tela lateral para o meu lado, e tentei fazer uma foto três por quatro, para ver como as pessoas estavam me vendo.  Sim, havia uma velha brotando naquela boca sem mais contornos, naquele perfil onde o nariz arrebitado começava a cair.

Os olhos, sim, continuavam verdes, mas nem as duas cirurgias de pálpebras que eu havia feito, uma aos 45, outra aos 55, davam jeito na lateral que despencava, formando um sulco profundo. As sombrancelhas, já redesenhadas com henna por causa dos pelos escassos, estavam mais para ridículas do que para bonitas. Entre elas, uma ruga de expressão que vinha desde o berço me dava ares não mais de brava, mas de contrariada, cansada, quase triste até.

Isso me deixou intrigada, porque aquela expressão contradizia minha paz interna, minha disposição de viver, minha alegria e bom humor. Estranho, muito estranho...teriam os cirurgiões mudado meu olhar, ou estaria meu olhar antecipando uma tristeza que eu ainda não sentia?  Abri um sorriso de orelha a orelha para ver se a expressão melhorava. Pareceu o Roberto Carlos rindo. Lábios finos e rasgados, mostrando apenas a ponta dos dentes, também esses, tenho que confessar, já mexidos e remexidos por dezenas de dentistas.   

A imagem que eu tenho de mim é a da carteira de identidade. Uma carinha lisa e suave de 30 anos de idade. “Em que espelho ficou perdida a minha face?” declamei. Estaria Cecília Meireles beirando os 60 quando escreveu “Retrato”?  Faço as contas: se ela morreu aos 63, tinha apenas cinco anos a mais do que tenho hoje. E, no entanto, me sinto tão jovem...tão saudável... morreria feliz aos 63? Ou daqui a pouco, quando for remar? Está pronta a minha vida, posso apagar a luz e dizer adeus? 

 “Ainda é cedo amor, mal começastes a conhecer a vida”, cantarolo enquanto caminho para a praia, onde encontro os amigos do clube do SUP (Stand Up Padle). Levanto sozinha a prancha de uns 20 quilos, mais de dois metros de comprimento, quase um metro de largura no meio, e atravesso a rua com cuidado, olhando para a direita e para a esquerda, para evitar acidentes. Pareço uma formiguinha carregando uma folha de mangueira.
Márcia no stand up
 Pouso a folha na praia, no lugar aonde a onda quebra, e levanto a perna esquerda para colocar o “leash”, a corda que me mantém ligada à prancha enquanto navego. Gosto da minha perna, reflito. Gosto muito mesmo. Já foram mais bonitas e torneadas, mas continuam fortes, sem varizes ou dores. Já que o dia é de inventário do envelhecimento, apalpo também as panturrilhas, definidas e duras. Sim, boas pernas, constato satisfeita. Ainda me levam longe.

Ajoelho sobre a prancha até atravessar as primeiras ondas e me levanto. De uma vez só, trazendo junto o remo. Acerto a postura, a postura firme da montanha, barriga e glúteo para dentro, coxas tesas, joelhos semi-dobrados. Remo duas vezes de cada lado, remadas lentas e longas, acompanhadas de uma virada completa do corpo.  Aproveito o movimento para examinar as celulites. Felizmente o estrago é menor do que o que vejo nas mocinhas criadas a coca-cola e MaCDonald.  
visão da praia durante a ásana sarvangasana
  Entôo o hino de Paulino da Viola: “Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar”, focada na ilha à minha frente. Quando chego aonde quero chegar, onde as águas são mais limpas, frias e profundas, mergulho. O mar me abraça inteira, com seus braços verdes, quentes e salgados. Impossível não ser feliz.  Se eu morresse agora, seria uma morte boa e serena. Não deixaria nada para trás, morreria em completa harmonia com as naturezas, a minha e a que me circunda. Num estado de paz pelo qual batalhei muito. E no qual finalmente me encontro.   

 Morrer agora seria mais digno? Quando eu mais desfruto da vida? Nada disso, querida jovem amiga. Quero disso muito mais. E isso significa envelhecer. Então vale a pena.  Porque é somente quando nos destituímos dos cargos conquistados, nos demitimos dos nossos trabalhos, dos bens inúteis, dos excessos todos, é que encontramos a paz. Se o preço são essas rugas, essa pele um pouco flácida, algumas manchas nas mãos e essa cara que não combina em nada com a minha alma, pago com gosto.

 Quem tiver preconceito que morra cedo. Na terrível idade entre o pavor de envelhecer e o desespero de ser jovem."                   



4 comentários:

m.Jo. disse...

Ai.....
Lindo, né? Mas podia doer menos.

Anônimo disse...

Hoje, os 50 são os novos 30. Quem tem 60 em nada se parece com as mulheres dessa idade do século passado (tão próximo). São os "novos velhos", já objeto de reportagem de uma revista, há pouco tempo. Tenho 72 e ando para cima e para baixo, mudei-me aos 70 para uma nova cidade, sou jovem. Nós temos sorte. Quando lembro minha mãe contando que, aos 40, o que restava à mulher em sua época era ficar em casa na cadeira de balanço, fazendo tricô, sinto arrepios. Só posso parabenizá-la.

Lilian Molinari disse...

Espero me maravilhar com a vida exatamente como você o está fazendo, em Paraty!
Parabéns!
Lilian

Lilian Bianchi LiaBia disse...

Que maravilha de texto! A juventude está na alma.

Cheguei até aqui porque gostaria de saber como é morar em Paraty. Quem sabe no futuro eu possa viver lá. Li um texto de um cara do blog Pensando Impunimente que realmente me deixou preocupada. Voce parece estar bem feliz aí. Aos meus olhos voce realmente parece bem jovem!

Obrigada por compartilhar.

Lilian Bianchi