quinta-feira, 28 de agosto de 2014

troca de senha

“Alguém tentou acessar sua conta do Gmail dez minutos atrás. Se você não está em Wisconsin, troque sua senha agora.”
Fiquei imóvel, olhando para as palavras na tela até que achei por bem obedecer às instruções: troquei a senha e saí da sala para contar o episódio para meu marido. Ele estava quieto, olhando fixo para o computador dele. Mostrou-me uma mensagem semelhante. A tentativa de invasão no computador dele viera de Delaware, outro estado americano. O mais surpreendente veio depois. A cada 20 minutos chegava uma nova mensagem do Google dizendo a mesma coisa, só mudava o local de origem dos invasores.
Metade do mundo americano querendo ler nossas cartinhas!
Como avisar que estavam cometendo um engano terrível, que somos apenas dois insignificantes viventes? Trocamos as senhas, uma segunda e uma terceira vez. Aquele fenômeno devia ser orientado por um programa de computador, o bombardeio era regular e preciso. Finalmente nos empenhamos em colocar umas senhas complicadíssimas, com dez dígitos, incluindo números, letras e símbolos gráficos.
O ataque parou.
O problema agora é que não conseguimos lembrar as novas senhas.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Casa Literária do Sesc Ipiranga




Enquanto a reforma do SESC Ipiranga prossegue, a alternativa encontrada para a ocupação artística é um casarão na Rua Bom Pastor, 709. A casa é uma deliciosa extravagância para ser percorrida do jardim ao quintal, com parada para chá e bolo na cozinha e passeios voyeristicos pela intimidade de quartos e banheiros.
Num dos quartos, a escritora Andrea Del Fuego faz uma narrativa inédita espalhada pelos móveis.

A ideia do projeto é propor atividades que despertem o imaginário gerado pela representação de uma casa enquanto o local da intimidade e da memória. “Nos quartinhos, nas passagens, nos cofres, nas fendas e nos armários é onde se desenha o íntimo dos seus habitantes e, com isso, revelamos sentimentos e lembranças”, diz a coordenadora do projeto, Roberta Lobo.
os batons e perfumes na narrativa de Andrea
 Na perambulação pelos dois andares da casa, parei para ler folhas soltas do livro do filósofo francês Gaston Bachelard: para ele, a casa é o nosso canto no mundo. “Se nos perguntassem qual o benefício mais precioso da casa, diríamos: a casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador, a casa nos permite sonhar em paz”, escreve em A poética do espaço, de 1957.
Não sei se a Casa Literária será temporária, talvez só dure o tempo da reforma. Vale a pena mantê-la, foi um passeio cultural dos mais interessantes.
uma banheira dramática 
o galpão readaptado com pallets de madeira, é palco para apresentações cênicas
A junção de três salas deu lugar ao salão de visitas, um espaço de experimentação e apresentações de dança e teatro              


   

sábado, 2 de agosto de 2014

Pai e filho

O menino saltava, o menino ria, o menino não parava quieto. Aquele rostinho risonho de olhos oblíquos não teria mais que quatro anos. Um adulto tratava de segurá-lo, enlaçando-o na altura da cintura com uma das mãos.
O homem e o pequeno vestiam calças jeans e camisetas de malha de algodão, uma azul, outra estampada; um calçava tênis pretos, o outro, botina encarnada. Pai e filho, mesmo com
traços faciais diferentes? Possivelmente: o amor era visível. Os olhinhos puxados do garoto poderiam vir de uma mãe oriental. A exuberância infantil atraía o olhar dos passageiros naquela linha de transporte público da cidade de São Paulo. Além das movimentadas piruetas, o pequerrucho emitia gritinhos vibrantes a cada par de minutos.
O trem solto nos trilhos e a animação do menino me estimularam a fazer um comentário:
- Como seu filho é entusiasmado!

Uma sombra súbita nublou o rosto do homem, nem respondeu. Intrigada, olhei melhor para o guri. Oh... os olhos amendoados, o comportamento impulsivo, os dedos curtos... a ficha caiu.
Creio que o pequeno tinha a síndrome de Down.
(Ó céus...por que não me calo?)

quinta-feira, 26 de junho de 2014

o sol da meia-noite e a hidrelética de Belo Monte

Irmão Sol, Irmã Lua

Meus dois filhos jamais estiveram tão geograficamente afastados como hoje: a mais velha está na cidade de Tromso, no extremo norte da Noruega – perto do Polo Norte. Vai participar da Maratona do Sol da Meia-Noite que acontece hoje, em pleno círculo polar ártico. Tromso foi a porta de entrada para as expedições que se aventuraram no mundo do gelo e da neve. O explorador Roald Amundsen, primeiro homem a alcançar os polos Sul e Norte, viveu durantes meses na cidade.
Não será fácil, faz frio, e chove.
O mais jovem é um dos engenheiros que está trabalhando para construir a terceira maior hidrelétrica do mundo, em Belo Monte, no Pará, à margem do Rio Xingu – próximo à linha do Equador.
Não é fácil, os alojamentos são espartanos, as jornadas de trabalho são intensas (6 dias por semana, às vezes, sete), é a época da seca, e o calor, escalda.
Estou aqui na torcida -- num saudoso Trópico de Capricórnio.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Que estranho chamar-se Federico



 “Um álbum que reúne fotografias, recortes, flores secas e até mesmo uma mosca imprensada entre as páginas”: é assim que Ettore Scola descreve seu último filme “Que estranho chamar-se Federico”.  O diretor octogenário volta ao passado para contar um pouco de sua infância, sua amizade com Fellini desde o tempo de “artista de jornal” , como a obra do mestre de Rimini esteve presente em toda sua obra e como marcou definitivamente o cinema italiano e  mundial. Filmado inteiramente no Estúdio 5 da legendária Cinecittà, onde  Fellini criou a maior parte de sua obra,  Scola faz um  “retrato cubista” de Fellini.
No início o espectador se depara com o jovem Federico (então com 19 anos) chegando à redação do jornal humorístico romano “Marco Aurélio”, onde não apenas escreveu, mas se tornou “ghost writer” de seus colegas. Cinco anos mais tarde, seria a vez do próprio Ettore chegar à redação com seu portfólio debaixo do braço. Foi assim que começaram a amizade que perduraria pela vida. Ambos tinham o gosto pelo design, frequentavam os mesmos bares e tinham um grande amigo comum – Marcello Mastroiani, o ator predileto desses dois grandes diretores da “italianice”.  Essa convivência permite a Ettore aprofundar o retrato das manias do amigo. Quando tinha insônia Federico entrava em seu automóvel e fazia longos passeios noturnos pelas ruas de Roma em busca de sono e de inspiração, dando caronas a desconhecidos que abordava nas ruas. Em uma das cenas mais emblemáticas entra no carro a prostituta Wanda cujas desgraças lembram a personagem imortalizada pela atriz  Giuletta Massina, em “Noites de Cabíria”.  
Palhaços, mágicos, mulheres de seios fartos, figuras bizarras, os cinco Oscars que Fellini ganhou, tudo é relembrado através de pedaços de filmes, entrevistas, a música de Nino Rota.    Até a capacidade de Federico para reinventar suas memórias, como visto no documentário  “Fellini: sou um grande mentiroso”.  Gostava de contar, por exemplo, que aos 5 anos tinha fugido de casa para se juntar à trupe de um circo o que nunca aconteceu.
Gostei especialmente da montagem no final do filme, feita a partir de imagens das obras-primas de Fellini. Uma homenagem apaixonada que faz o espectador nem tanto “entender” Fellini, mas experimentar um pouco de sua fabulosa imaginação.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Frida Kahlo

O quadro da esquerda - "Autorretrato com vestido de veludo" - foi o primeiro da série feita por Frida Kahlo para contar, através da pintura, um tanto de sua atribulada vida. À época ela estava com 19 anos; fez para o amante, Alejandro Arias. O quadro da direita é o célebre "Autorretrato com colar de espinhos e beija-flor". O olhar de Frida sugere tanto seu sofrimento quanto sua tenacidade - as libélulas e as borboletas ao redor de sua cabeça são símbolos de esperança e renascimento.
O beija-flor pendurado em seu colar é um símbolo mexicano de sorte no amor. No entanto, o pássaro está morto.  Talvez devido à sua atormentada relação com Diego Rivera: ambos tiveram amores extraconjugais e se separaram diversas vezes. Frida teve um caso durante mais de um ano com o revolucionário russo Leon Trostky, enquanto Rivera namorou Cristina, a irmã de Frida. Os dois quadros e outros 40 retratos e autorretratos fazem parte da exposição que está no museu Scuderie del Quirinale, em Roma. Traz ainda uma coleção de fotografias do cotidiano de Frida e fragmentos de seu diário, cheio de ilustrações e mensagens poéticas onde expressa sua vontade de morrer: 
 " Espero alegre a saída e espero não voltar jamais".
Ave, Frida, descansa em paz..

Geraldo Alckmin e a falta d´água em São Paulo


José Mujica, Presidente do Uruguai















"Todo vício é uma praga, menos o amor."

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Viagem para a Sicília

Entrei no ônibus de olho na única cadeira vazia -- o percurso da praia até Palermo levaria cerca de meia hora e as curvas da estrada desequilibram os passageiros que viajam em pé. Sentei defronte uma criatura de olhos pretos que trazia junto aos pés um enorme pacote transparente cheio de bolas de plástico. Um rapaz franzino, de tez morena, vestindo roupas folgadas de algodão branco, parecia um vendedor ambulante. Conversava em língua estranha com pessoas que estavam perto da porta. Ouvi alguém comentar em inglês que eram imigrantes de Bangladesh. Logo depois me levantei para passar meu bilhete na maquininha que fica atrás do motorista e perfura a passagem; quem não toma essa providência arrisca-se a pagar uma multa cara, se o fiscal aparecer. Tentei inserir o bilhete repetidas vezes, a máquina estava emperrada. Notei que o rapaz acompanhava meus movimentos com o olhar. De repente levantou-se, pegou minha passagem, fez outras tentativas mal sucedidas. Pedi o bilhete de volta para ler o que estava escrito. Dizia em letras miudinhas que em caso de enguiço da máquina, o passageiro deveria escrever o dia e a hora do embarque no próprio bilhete. Foi o que fiz, e voltei a me sentar. O rapaz bengalês não teve a mesma sorte, um homem sem cerimônias sentou na cadeira dele sem se importar com as bolas de plástico. A viagem prosseguia sem novidades quando o jovem voltou a se aproximar de mim com o bilhete dele na mão. Parecia aflito. Procurava ultrapassar a barreira da língua com gestos que eu não conseguia compreender. Para complicar, o homem que tomara o assento dele pôs-se a falar comigo em italiano. Dizia-me com veemência para desconsiderar o pedido do rapaz, mal ocultando a raiva. Talvez não gostasse de imigrantes, não sei. Olhei para os olhos do rapaz bengalês – e é este momento que ainda me assombra – os olhos mostravam desapontamento e mágoa. Pareciam dizer “perdi meu assento tentando lhe ajudar e você me deixa na mão?” Imediatamente vi os dois fiscais dentro do ônibus e finalmente entendi o que o jovem me pedia: para escrever a data e a hora no bilhete dele. Não sei se ele não tinha caneta ou se não sabia escrever. Rabisquei a data apressadamente, um pouco antes dos fiscais pedirem nossas passagens para conferir – deu tudo certo. O rapaz se afastou para o fundo do ônibus. Quando descemos na parada final ainda fiz um gesto de aproximação. Ele me olhou como se nunca me tivesse visto, voltou-se e começou a andar na direção contrária carregando o pacote com as bolas de plástico.

"Eu, Zuzu Angel, procuro meu filho"

Lá fora, na Avenida, a parada gay bombava a tarde fresca e ensolarada. No vagão do metrô eu percebera um frenesi, uma alegria inesperada. Quando saltamos na estação Brigadeiro, um grito uníssono, uma agitação boa. Pensei que estava no meio de um "rolezinho"; sem ler jornais recentes não sabia que era a data da parada. Só então percebi as roupas de festa, os pares do mesmo sexo. Animada, fiquei andando pelas frestas da procissão até cansar dos sons e dos sapatos altos. O casal mais interessante que vi era formado por duas mulheres magrinhas, de olhos amendoados e cabelos grisalhos. As amantes japonesas, que lindas.

"O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem." (Guimarães Rosa)
As portas de vidro estavam abertas; depois, julguei ter visto o verso de Dante escrito em tinta invisível
"Deixai, ó vós que entrais, toda a esperança!”
Peguei a brochura "Zuleika" com a moça do guichê da recepção; disse-me que a exposição da Zuzu Angel é a mais freqüentada desde a inauguração do Espaço Itaú Cultural, nove anos atrás.
Estilista famosa, inclusive no exterior, inventou uma moda brasileira.
Mãe-Coragem.

Além do acervo estético, deixou um destemido grito, dedicando os últimos anos de sua vida à denúncia da morte de seu filho, Stuart Angel, assassinado pela ditadura militar no Galeão, num ritual de martírio atroz. Até ser jogada fora do Túnel Dois Irmãos, no Rio de Janeiro, pelos irmãos dos que torturaram e mataram seu filho e sua nora. Hoje o túnel traz seu nome.
Para ela, Chico Buarque compôs uma canção tão triste quando bela, "Angélica"

Quem é essa mulher
que canta sempre esse estribilho?
Só queria embalar meu filho
que mora na escuridão do mar
Quem é essa mulher
que canta sempre esse lamento?
Só queria lembrar o tormento
que fez o meu filho suspirar.

Essa mulher fez o horror da ditadura repercutir em seus desfiles, em cândidos bordados aplicados nos longos vestidos brancos. Bordados de tanques-de-guerra, passarinhos engaiolados, janelas de cadeia, e armas, tudo finamente dedilhado.
Demorei para entender o recado fashion.
Três mortes, na mesma família.
Três atrizes liam as cartas da Zuzu, em diferentes espaços da exposição; ou faziam performances.
Chorei, não pude evitar.
É a nossa história, brasileira, argentina, chilena; a história da minha geração, a estória do Cláudio, a história que ainda não está nos livros.


segunda-feira, 5 de maio de 2014

San Gimignano, Toscana

Decidimos passar o domingo da Páscoa em San Gimignano, uma cidadezinha conhecida como "Manhattan medieval"  por causa de suas torres. Como os ônibus estavam parados no feriado, tomamos um trem até a cidadezinha de  Poggibonsi, e um táxi para os últimos 12 kms até San Gimignamo. O vilarejo é bonito como um querubim, a quintessência da Toscana. A catedral com afrescos, jardins floridos, oliveiras, ruas espiraladas, obras de arte raras. Na hora do retorno, um sufoco inesperado. Nenhum táxi disponível, a cidade coalhada de turistas! Horas procurando. A tarde caindo, o frio chegando, começamos a pedir carona aos estranhos dos estacionamentos, sem sorte. Uma americana grávida teve pena de nós, pediu ao marido para nos levar até Poggibonsi; ele não topou. Pedi ajuda aos policiais que organizavam a pequena multidão turística - bem que eles tentaram, fazendo telefonemas, sem sucesso. Dois motoristas de ônibus fretados também telefonaram para seus conhecidos : ninguém. A gente já estava pensando em procurar hotel só com a roupa do corpo e conformar com a perda das passagens de trem para Bolonha na manhã seguinte. Desolados e cansados, sentamos num banco, foi nessa hora que surgiu o mesmo táxi que havia nos trazido - e livre! Depois do táxi ainda tivemos a sorte de pegar o último trem para Siena. Deu para chegar no hotel da Piazza Lizza, com a noite bem avançada.
Estou começando a sentir uma saudade de casa...!

domingo, 17 de novembro de 2013

Trata-se de ficção

"O imperador Carlos Magno, já em avançada idade, apaixonou-se por uma donzela alemã. Os barões da corte andavam muito preocupados vendo que o soberano, entregue a uma paixão amorosa que o fazia esquecer sua dignidade real, negligenciava os deveres do Império. Quando a jovem morreu subitamente, os dignitários respiraram aliviados, mas por pouco tempo, pois o amor de Carlos Magno não morreu com ela.
O imperador mandou embalsamar o cadáver e transporta-lo para a sua câmara, recusando separar-se dele. O arcebispo Turpino, apavorado com essa paixão macabra, suspeitou que havia ali um sortilégio e quis examinar o cadáver. Oculto sob a língua da morta, encontrou um anel com uma pedra preciosa. A partir do momento em que o anel passou às mãos de Turpino, Carlos Magno apressou-se em mandar sepultar o cadáver e transferiu seu amor para a pessoa do arcebispo. Turpino, para fugir àquela embaraçosa situação, atirou o anel no lago Constança. Carlos Magno apaixonou-se então pelo lago e nunca mais quis se afastar de suas margens."
-----------------
Extraído do livro "Seis propostas para o milênio", de Ítalo Calvino

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Manakamana

Olhei de relance para as performances dos artistas de rua – lá estavam o Elvis Presley da Paulista e um homem que vestiu azul e saiu de Yemanjá. Estava com pressa: havia combinado ver dois filmes com uma sobrinha. O primeiro narra a emocionante história da jovem belga “Suzanne” ao longo de uns 20 anos. Filme bom, premiado. Porém o que ficou na minha mente foi o segundo filme, “Manakamana”, cujo título significa “desejo no coração” e é o que se chama de filme arrastado. Tomadas longas, exasperantes, tanto que vários espectadores abandonaram a sala de exibição.
O documentário mostra os peregrinos que sobem de teleférico ao templo da deusa Bhagwati, um dos mais famosos santuários do Nepal. Antigamente o percurso era feito a pé, montanha acima, levava horas. O templo nunca aparece, nem a imagem da deusa – os diretores não quiseram explorar o “exótico”. A viagem vale mais do que o destino, parece dizer o filme. Estamos na verdade olhando para os rostos dos passageiros, ouvindo conversa fiada, observando a linguagem corporal – tudo contra o cenário deslumbrante das montanhas e florestas do Nepal. Os passageiros vão de mulheres trajando saris coloridos, adolescentes nepaleses tirando fotos com suas câmeras digitais idênticas, um casal com um galo no colo, um par de músicos afinando seus instrumentos, um carro cheio de cabras...Um filme diferente sobre a convivência do moderno e do antigo, sobre o tempo e sobre a percepção

domingo, 20 de outubro de 2013

seguro viagem Porto Seguro

Às 3:15 da madrugada o despertador do meu marido nos acordou.  Cláudio havia programado sair de Santo André na balsa das quatro horas no rumo de Paraty, levando o carro abarrotado com os últimos pertences que tínhamos no povoado: livros, fotografias, panelas, varas de pescar.    Mais tarde eu tomaria um avião para São Paulo.  Despedimo-nos com votos de boa viagem.  Voltei a dormir até ver o brilho do sol bater nas folhas dos coqueiros da Pousada Ponta de Santo André. Arrumei a mala, dei uma última volta pelas ruas da Vila e sentei na varanda para aguardar Teresa – ela me levaria para o aeroporto na balsa das 11:30. Como se fosse um pressentimento do que estava por acontecer, a balsa estava lotada, nosso carro foi o último a caber na embarcação.
Tudo correu bem até chegarmos em frente ao Barramares – ali fomos surpreendidas por um enorme engarrafamento. Grandes galhos de árvore e dezenas de táxis bloqueavam a estrada – dali para a frente não passava ninguém.  Era um protesto organizado dos taxistas de Porto Seguro. 
Impossível chegar ao aeroporto.  Um amigo, o Leonardo, me deu uma força pegando minha mala, e assim atravessamos a pé toda a confusão de motoristas revoltados. Encontrei um taxista que se prontificou a me levar para o aeroporto por um caminho alternativo que passa pelo Alto do Mundaí, pega uma esburacada e lamacenta estrada de terra e continua pelos bairros do Geraldão,  Paraguay e Sapoti. Eu não conhecia aquele caminho, dizem que é a zona mais perigosa da cidade.  Só naquele momento o motorista  avisou o valor da corrida – o dobro do preço normal – e se eu não concordasse podia descer ali mesmo.  Sem outra opção, tive que aceitar.
Entendi as razões dos taxistas, só que aquele senhor agiu mal...

Finalmente chegamos na estrada que vem de Eunápolis para Porto Seguro, perto do IFBA. Logo depois, outro bloqueio, ainda mais concentrado. Desci do carro, paguei a corrida e comecei a arrastar minha mala em direção à Rodoviária sob um sol africano que queimava minha testa e me fazia suar.  Andei mais de uma hora, encontrei a Luzia e uma amiga naquela balbúrdia, nem deu tempo para conversar.  Grupos de estudantes caminhavam a pé – imaginem o tumulto nas escolas, nem os pais podiam pegar as crianças nem o transporte escolar.
Consegui chegar a tempo de embarcar no voo para São Paulo: estava vazio. A aeromoça me contou que dos 158 passageiros confirmados, só 54 conseguiram chegar.
o avião vazio

Tudo isto me deixou com a pulga atrás da orelha... e se isso acontecer durante a Copa do Mundo de 2014?

sábado, 21 de setembro de 2013

viajar para Roma pela Alitalia

O ar condicionado no voo Sao Paulo-Roma serviria para um frigorifico: temi um ataque de alergia e nao é que acertei?
Meu rosto ficou coberto de placas vermelhas. No dia seguinte, procurei uma farmàcia. Mesmo minha filha explicando que nao posso tomar aspirina me deram uma droga que continha a substancia. Tomei um comprimido, a reaçao nao se fez tardar, dois dias depois meus olhos fecharam sob o peso do inchaço. Nem deu tempo de usar meu seguro de saude internacional. Filha e genro decidiram me levar para o hospital di Santo Spirito na cidade do Vaticano. Hospital publico, bastou meu passaporte para garantir o atendimento no pronto socorro. Tomei soro e injeçoes anti-histaminicas. Fiquei horas em observaçao.
Ao meu lado, uma senhora gemia alto e chamava Francisco.
Pensei que era seu filho, mas que nada -- ela estava chamando o Papa!
Como ele devia estar muito ocupado, ela mudou o chamado para "mamma, mamma, dove sei?" (onde estàs, mamae?)
Coitada, parecia estar sofrendo muito...
Fui muito bem atendida, sai de là em bom estado, embora meu rosto ainda pareça com o de uma japonesa gorducha...
---------------------------------------------------
-- de médicos e de hospitais
um assunto em voga no Brasil de hoje...

viver em Roma

Ponte Milvio, construída 200 anos antes de Cristo, famosa pelos cadeados que os enamorados colocavam em seus postes - e depois jogavam as chaves no rio Tibre. A prática acabou sendo proibida pelas autoridades pois estavam danificando a ponte. Em 2011, os "cadeados do amor" foram retirados. Há uma concentração de restaurantes e bares com mesinhas nas calçadas nos arredores, bem agradável para a hora dos aperitivos.
-----------
(esta é uma pequena colcha de retalhos de uma viagem que fiz à Roma, recentemente)
Passei no Palácio Barberini para rever as escadarias e uma das telas mais queridas de Raffaello Sanzio, este que é um dos maiores pintores italianos de todas as épocas. Tanto que o ano de sua morte, 1520, assinala o final do Alto Renascimento. Nascido em Urbino, Rafael trabalhou em Perugia e Florença, alcançando o apogeu da fama na Roma papal, onde faleceu com a idade de 37 anos. É no Barberini que se encontra o ultrafamoso retrato de Margherita Luti, a amante predileta do artista, conhecida como "La Fornarina" , por ser filha de um padeiro ("fornaio", em italiano) . Pude ver, de pertinho, a fita que lhe cinge o braço esquerdo com a assinatura do pintor - uma atitude atrevida para a época. Assim, Rafael proclamou ao mundo que além da obra, a modelo também lhe pertencia. Embora não a tenha desposado, colocou uma aliança no dedo anular da mão esquerda de Margherita. Rafael está enterrado num local espetacular:simplesmente no Panteão. Seu epitáfio diz: " Aqui jaz Rafael que enquanto vivo fez a Natureza ter medo de ser conquistada por ele e quando agonizava deixou-a temerosa de morrer junto com ele"

-------------------------------
Abaixo, outra tela de Raphael retratando a Margherita
Esta se chama "La donna velata" (a mulher com véu)
encontra-se no Palácio Pitti, em Florença
 Outro episódio da viagem:

Peguei um ônibus para Trastevere num dia tão bonito que a contemplação da paisagem me distraiu e me fez passar do ponto. Aflita, virei-me para o passageiro sentado ao meu lado. Gentilmente, ele me explicou o que deveria fazer para dar meia-volta. Quando descemos, ele me mostrou o ponto de ônibus do outro lado da rua. Agradeci e já começava a atravessar a faixa de pedestres quando ele perguntou se eu não gostaria de ir até a casa dele.
-- Signore! Io sono una nonna!
-- Signora, anche Io sono un nonno...
(--Senhor! Sou uma vovó!
--Eu também sou avô, minha senhora... )
-------------------------------
cara de pau, viu?

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Flores Raras, o filme de Elizabeth Bishop

Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.”

---------------
O filme “Flores Raras” inicia com versos de Elizabeth Bishop, a grande poeta norte-americana que em 1951 navegou pela costa brasileira até encantar-se pelas montanhas de Petrópolis e pela arquiteta  Lota de Macedo Soares  com quem viveu um romance de 16 anos entre grandes alegrias, sofrimentos, crises de alcoolismo e extraordinários poemas. 
Foi Lota quem idealizou e administrou a construção do Parque do Flamengo, no Rio de Janeiro.
Vale a pena desfrutar a direção de arte primorosa -- a fita tem um clima "de época" --  e o deslumbrante cenário avistado por quem habitava uma casa de vidro no meio da Mata Atlântica cercada de jardins belíssimos.
-----------
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subsequente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.”


------------------
Acabei me envolvendo emocionalmente com a narrativa  – também perdi três casas e o relógio de meu pai – e me encantei com a forma delicada de tratar o tema da perda, no poema e no filme.
---------------
Tenho saudades deles. Mas não é nada sério”.
---------------
Quem nunca?

----------
no post abaixo, a casa de Elisabeth Bishop em Ouro Preto 

Elizabeth Bishop - a casa em Ouro Preto

A poeta Elizabeth Bishop é desse tipo de artista cuja vida entrelaça a própria obra.  Viveu 16 anos no Brasil, a maior parte do tempo entre Petrópolis e o Rio de Janeiro.  Um de seus desejos era conhecer a cidade de Ouro Preto -- ali ela comprou e restaurou uma casa antiga e linda, quando já era uma poeta renomada vencedora dos prêmios Pulitzer e National Book Award.  Achei uma matéria sobre esta casa,  escrita pelo artista plástico José Albert Nemer, amigo da poeta desde a juventude e responsável pela manutenção da casa hoje em dia.
Eis o seu relato: 
---------------
"Conheci Elizabeth Bishop em 1968, na casa de um amigo, em Ouro Preto, MG. Conversamos durante o almoço, e ela me convidou para tomar o café na casa dela. Na época, Elizabeth tinha 57 anos, mas parecia ter muito mais. Aos poucos, essa impressão foi passando, pois, embora ela fosse realmente frágil fisicamente, tinha um olhar vivo e interessado sobre as pessoas e as coisas. Nesse encontro, enquanto ela preparava o café na cozinha, seus dois gatos – Suzuki e Tobias – se instalaram sobre as minhas pernas, no sofá da sala. Quando ela voltou, achou graça da intimidade dos gatos e comentou que eles “nunca perdem a oportunidade de experimentar o colo de algumas visitas”.
Eu era muito jovem e, embora não lesse em inglês nem conhecesse sua poesia (entre suas obras, Poemas do Brasil e O Iceberg Imaginário e Outros Poemas, pela Companhia das Letras), podia sentir a dimensão de seu talento em suas observações. Alguns desses insights, de tão sensíveis, poderiam ter virado poema. É o caso do comentário que fez sobre uma lamparina de querosene que ficava sobre a lareira. Era um trabalho popular e artesanal que usava o bojo de uma lâmpada queimada sustentada por alças de lata recortada, terminando com uma tampinha de garrafa de onde saía o pavio: “Agora sei por que gosto tanto deste objeto. Quem fez isso quis ressuscitar a luz da lâmpada”
Ficamos amigos. Elizabeth acabava de voltar dos estados Unidos e de restaurar sua casa de Ouro Preto, comprada três anos antes, para nela se instalar. Depois de pronta, deu-lhe o nome de Casa Mariana, em homenagem à sua incentivadora Marianne Moore. Sua implantação e seu entorno já a colocam em situação privilegiada. Datada entre 1698 e 1711, é um exemplar raro do período do ouro e do diamante em Minas Gerais. Construída sobre um rochedo e com vista sobre a cidade e as montanhas, a casa, de 513 m², tem um imenso terreno que desce em terraços, com jardins e pomares sustentados por muros de pedra. Um riacho corre ao lado, margeando o terreno. Em carta a um amigo, Elizabeth conta que “a casa tem o telhado mais bonito da cidade: é como uma lagosta emborcada com a cauda em ângulo reto, onde fica a cozinha”. Ali, ela fazia, com alegria e métodos precisos, pratos deliciosos, como as abobrinhas ao forno, o lombo com purê de maçã-verde e a conserva acre-doce de legumes em banho de mostarda – esta, inigualável.
Ser seu hóspede era um instigante exercício da sensibilidade. A atmosfera da casa sempre pareceu mágica. Os móveis, típicos da região nos séculos 18 e 19, foram adquiridos em antiquários. Outras peças, como a lareira e a banheira, foram trazidas por ela dos Estados Unidos, assim como utensílios de cozinha de designers nórdicos. Acordava-se ao som de bob Dylan, Janis Joplin e Alfred Deller. No café da manhã, tinha-se a companhia da dona da casa para sua segunda xícara. A primeira, a empregada lhe servia na cama, bem forte, amargo, pingado de leite, com duas torradas quentes, manteiga e uma geleia de laranja que ela mesma fazia. A cama – com as cabeceiras em forma de pescoço de cisne – servia também para rascunhar poemas. No dia a dia, Elizabeth tinha o olhar muito atento e achava graça nas coisas, nas conversas, nas pessoas. Ríamos muito. Era uma graça  criativa, fisgando o aspecto insólito de certas situações, elevando o cotidiano banal à categoria de pura poesia. Observadora afiadíssima, sua leitura da realidade era muito mais pelo understatement do que pela fachada puramente objetiva. Esse estado de espírito me lembra a definição de Pascal, “esprit de finesse”, mas também de perspicácia e penetração.
Quando seu grande amigo, o poeta americano James Merrill, veio visitá-la, ela o recebeu e logo invernaram por uma conversa sobre suas vidas e mágoas. Nessa época, eu estava hospedado na casa e entrei na sala no momento em que Elizabeth chorava. Percebendo isso, discretamente fiz meia-volta e saí. A poeta me chamou e disse: “pode entrar, eu estou apenas chorando em inglês”.
Quando Bishop morreu em Boston, em 1979, a Casa Mariana ainda lhe pertencia. Em 1982, minha irmã, Linda Nemer, a adquiriu da herdeira principal, Alice Methfessel. Mesmo sendo onde a família Nemer, em sua terceira geração, se reúne, a casa guarda intacto o aspecto original deixado pela poeta. Sempre houve o cuidado de dar-lhe a dimensão histórica merecida, estimulando sua vocação de ser um centro de referência à memória de Elizabeth Bishop e sua obra. Além de sua qualidade intrínseca, a Casa Mariana constitui-se, hoje, na mais autêntica e contundente presença de Elizabeth Bishop no Brasil."

sexta-feira, 7 de junho de 2013

a vida em Paraty



Encontrei uma brasiliense nas aulas de yoga na praia do Jabaquara -- Márcia Lage. Como eu, ela também se mudou para Paraty no ano passado, vinda da capital federal. Foi como encontrar uma conterrânea, pois Brasília é uma das  cidades importantes de minha vida. Ganhei a permissão da Márcia para postar um texto dela (abaixo)
-------------------

"Inventário do envelhecimento

A conversa era sobre preconceitos e minha amiga, 17 anos mais moça que eu, saiu com essa:  “....Até velhas de olhos verdes como você são vítimas de preconceito”. Como assim, basicamente? Preconceito porque sou velha? Ou porque tenho olhos verdes? Ou porque, apesar dos olhos verdes, sou velha?  
Não entendi a relação, mas como a palavra “velha” dói feito um preconceito em quem já passou da primeira metade da vida (considerando que a primeira metade termina aos 50, não mais aos 40, como antigamente), passei uma noite em claro. De manhã, considerei que toda aquela cara amassada diante do espelho era resultado da insônia.
 Fui para a aula de Yoga e, tirando uma dificuldade aqui, outra ali, estava tão flexível e leve quanto as garotas de vinte ao meu lado. Aliás, aquele gatinho de vinte e cinco, no máximo, estava tão travado que, perto dele, eu era uma bailarina chinesa.  Perscrutei minha alma durante o alongamento, e não encontrei nenhuma ruga. Meu coração, também, estava intacto, cheio de boas emoções.

Então voltei para casa, num indescritível estado de serenidade, e olhei novamente no espelho. A  cara continuava amassada. Peguei a câmera fotográfica, virei a tela lateral para o meu lado, e tentei fazer uma foto três por quatro, para ver como as pessoas estavam me vendo.  Sim, havia uma velha brotando naquela boca sem mais contornos, naquele perfil onde o nariz arrebitado começava a cair.

Os olhos, sim, continuavam verdes, mas nem as duas cirurgias de pálpebras que eu havia feito, uma aos 45, outra aos 55, davam jeito na lateral que despencava, formando um sulco profundo. As sombrancelhas, já redesenhadas com henna por causa dos pelos escassos, estavam mais para ridículas do que para bonitas. Entre elas, uma ruga de expressão que vinha desde o berço me dava ares não mais de brava, mas de contrariada, cansada, quase triste até.

Isso me deixou intrigada, porque aquela expressão contradizia minha paz interna, minha disposição de viver, minha alegria e bom humor. Estranho, muito estranho...teriam os cirurgiões mudado meu olhar, ou estaria meu olhar antecipando uma tristeza que eu ainda não sentia?  Abri um sorriso de orelha a orelha para ver se a expressão melhorava. Pareceu o Roberto Carlos rindo. Lábios finos e rasgados, mostrando apenas a ponta dos dentes, também esses, tenho que confessar, já mexidos e remexidos por dezenas de dentistas.   

A imagem que eu tenho de mim é a da carteira de identidade. Uma carinha lisa e suave de 30 anos de idade. “Em que espelho ficou perdida a minha face?” declamei. Estaria Cecília Meireles beirando os 60 quando escreveu “Retrato”?  Faço as contas: se ela morreu aos 63, tinha apenas cinco anos a mais do que tenho hoje. E, no entanto, me sinto tão jovem...tão saudável... morreria feliz aos 63? Ou daqui a pouco, quando for remar? Está pronta a minha vida, posso apagar a luz e dizer adeus? 

 “Ainda é cedo amor, mal começastes a conhecer a vida”, cantarolo enquanto caminho para a praia, onde encontro os amigos do clube do SUP (Stand Up Padle). Levanto sozinha a prancha de uns 20 quilos, mais de dois metros de comprimento, quase um metro de largura no meio, e atravesso a rua com cuidado, olhando para a direita e para a esquerda, para evitar acidentes. Pareço uma formiguinha carregando uma folha de mangueira.
Márcia no stand up
 Pouso a folha na praia, no lugar aonde a onda quebra, e levanto a perna esquerda para colocar o “leash”, a corda que me mantém ligada à prancha enquanto navego. Gosto da minha perna, reflito. Gosto muito mesmo. Já foram mais bonitas e torneadas, mas continuam fortes, sem varizes ou dores. Já que o dia é de inventário do envelhecimento, apalpo também as panturrilhas, definidas e duras. Sim, boas pernas, constato satisfeita. Ainda me levam longe.

Ajoelho sobre a prancha até atravessar as primeiras ondas e me levanto. De uma vez só, trazendo junto o remo. Acerto a postura, a postura firme da montanha, barriga e glúteo para dentro, coxas tesas, joelhos semi-dobrados. Remo duas vezes de cada lado, remadas lentas e longas, acompanhadas de uma virada completa do corpo.  Aproveito o movimento para examinar as celulites. Felizmente o estrago é menor do que o que vejo nas mocinhas criadas a coca-cola e MaCDonald.  
visão da praia durante a ásana sarvangasana
  Entôo o hino de Paulino da Viola: “Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar”, focada na ilha à minha frente. Quando chego aonde quero chegar, onde as águas são mais limpas, frias e profundas, mergulho. O mar me abraça inteira, com seus braços verdes, quentes e salgados. Impossível não ser feliz.  Se eu morresse agora, seria uma morte boa e serena. Não deixaria nada para trás, morreria em completa harmonia com as naturezas, a minha e a que me circunda. Num estado de paz pelo qual batalhei muito. E no qual finalmente me encontro.   

 Morrer agora seria mais digno? Quando eu mais desfruto da vida? Nada disso, querida jovem amiga. Quero disso muito mais. E isso significa envelhecer. Então vale a pena.  Porque é somente quando nos destituímos dos cargos conquistados, nos demitimos dos nossos trabalhos, dos bens inúteis, dos excessos todos, é que encontramos a paz. Se o preço são essas rugas, essa pele um pouco flácida, algumas manchas nas mãos e essa cara que não combina em nada com a minha alma, pago com gosto.

 Quem tiver preconceito que morra cedo. Na terrível idade entre o pavor de envelhecer e o desespero de ser jovem."