terça-feira, 16 de agosto de 2011

Uma estrela que cai

Recentemente estive em Brasília e tive o prazer de encontrar amigas para um longo bate-papo às margens do  Lago Paranoá - fomos colegas de profissão, no Banco Central.  Animada pelo texto do Felippe Barretto (alguns posts abaixo), pedi à Ceres que escrevesse sobre economia para o redefurada... Ela atendeu meu pedido (obrigada!)
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"Os mercados ficaram atemorizados com a decisão da agência de classificação de risco Standard & Poor’s  de rebaixar os Estados Unidos da America para AA+.  Obama veio à imprensa imediatamente para  dizer que independemente da avaliação daquela agência os Estados Unidos continuava a ser um país AAA. Vários economistas declararam que a Standard & Poor’s teria errado nos cálculos do rebaixamento e que as agências reagem defasadamente ao que todo mundo já sabe, e em muitos casos, no contexto de conflito de interesses.
Com certeza esse rebaixamento num primeiro momento é simbólico, já que os Estados Unidos permanece como AAA em duas outras agências, mas é importante  que sirva de alerta. O que vale para os demais, vale também para a estrela maior nesse mundo globalizado.
Na qualidade de funcionária da área internacional do Banco Central do Brasil fui integrante da equipe que tratou das negociações da dívida externa brasileira nas décadas de 80 e 90. Participei das longas e exaustivas reuniões em Nova Iorque com representantes dos quase 1000 credores privados internacionais  – as instituições financeiras -  e em Paris, com as  inúmeras agências governamentais de inúmeros países, no chamado Clube de Paris.
Naquela época, as negociações transcorriam sempre sob um clima tenso e de bastante desconfiança por parte dos nossos credores. Em muitas das vezes o grupo brasileiro ficava dias confinado em uma sala aguardando a vontade dos credores sentarem a mesa para negociar. Tempos difíceis aqueles, onde o País firmava um acordo com seus credores externos e no ano imediatamente seguinte o descumpria. As medidas internas adotadas pelos diferentes governos tinham uma eficácia bastante temporária obrigando o País a retornar a mesa de negociação inúmeras vezes.
Essa situação se arrastou por longos anos só chegando a termo  com  a conclusão do grande acordo de reetruturação de sua dívida externa, o conhecido Plano Brady  que foi  apoiado pelo lançamento do Plano Real no final de 1993 - que visou o ajuste das contas públicas.
Com a consolidação do Plano Real foi permitido ao Brasil retornar ao mercado  internacional. Já nessa época as agências de classificação de risco faziam o seu papel que é o de estabelecer um sistema de nota para avaliar o risco de cada investimento, para alertar os investidores de todo o mundo sobre os perigos do mercado em que eles escolhem para aplicar seu  dinheiro.
Em que pese o Brasil vir cumprindo os seus pagamentos com regularidade a estirpe de mau pagador era uma constância. Significava dizer que o custo de captação Brasil era alguns pontos percentuais acima do custo de captação de um bom pagador. Sempre muito dificil.
Muitos anos de regularidade de pagamento foram necessários, além de todos os indicadores econômico considerados  relevantes para atingirmos em 2009 o grau de investimento (BBB-). Costumávamos ouvir com freqüência que era importante o Brasil fazer o dever de casa antes de sentar-se a mesa de negociação.Os credores não podiam conceder aquilo que o país não merecia. Cumpríamos a risca o que nos era imposto, num caminho árduo e contínuo sem que ninguém viesse em nossa defesa. Hoje a classificação do Brasil dada pela Standard & Poor’s é de  BBB-.
É, os tempos são outros, o rebaixado dessa vez é os Estados Unidos. Qual a diferença?
A grande diferença, olhando a situação sem preconceitos ideológicos, é que o rebaixamento  americano  evidencia a situação fiscal no Primeiro Mundo, onde as dívidas dos governos chegaram a patamares tão altos que parece que se esgotou a capacidade desses países de  fazer políticas fiscais expansionistas. O grande desafio será encontrar novos caminhos. É talvez o ínicio de novos tempos. "

Ceres Aires Cerqueira
funcionária aposentada
do Banco Central do Brasil

4 comentários:

m.Jo. disse...

É claro que ninguém quer ver os Estados Unidos darem calote no mundo, principalmente porque temos muito dinheiro enfiado lá.
Mas que foi bom assistir a esse rebaixamento de camarote, foi. Deu um gostinho bom na boca. De vingancinha.

Queria ver a cara do Bill Rhodes.

olimpia disse...

I know exactly what you mean... rsrs

Junia disse...

Olímpia!!! Há quanto tempo!
Não pude deixar de comentar aqui, nada a ver com os USA... entrei aqui só pra lhe mandar um beijão (tem que ser "ão" por que já faz muuuuito tempo mesmo - lá se vão 14 anos de aposentadoria). Ainda continuo em Brasíila e fiquei um pouco empolgada com Santo André da Bahia... vou olhar mais seu blog.
Junia

olimpia disse...

Júnia!! Que boa surpresa!
Você está tão bem! Pelo menos na foto, conserva o sorriso que sempre foi sua marca registrada...
Se vier por aqui e precisar de alguma dica "personalizada", escreva para mim no email olimpiacalmon@gmail.com
Que bom lhe rever... se puder, mande mais notícias.
beijão!