segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Frank O'Hara e a morte de Billie Holiday



Frank O'Hara
os poetas de Gana
Frank olha o mostrador do relógio: é meio dia e vinte do dia 17 de julho de 1959 em New York. Naquela época, ele, Frank O’Hara,   era um poeta de prestígio.  Autor de estilo casual, gostava de escrever poesia na hora do almoço   (Lunch Poems é um livro seu – Poemas da hora do almoço). Ia empilhando frases de ações cotidianas – “fiz isto, fiz aquilo outro” – uma após outra. Assim, nos diz que adquiria um leve bronzeado enquanto subia a rua mormacenta, à procura de um engraxate. Ia pegar o trem das 4:19 e desembarcar às 7:15 em East Hampton – um lugar cheio de prováveis ricos esnobes. Melhor chegar lá com os sapatos engraxados. A voz que nos fala no poema pertence a alguém acostumado a encontrar portas abertas – tanto que nem sabe quem serão os anfitriões.  Come um hamburger acompanhado de milk-shake de chocolate.  Compra uma revista literária, a NEW WORLD WRITING, para ler os que os poetas de Gana estão produzindo. Vai ao banco e fica surpreso quando a mulher do caixa desconta o cheque sem checar seu saldo.  Prossegue até uma livraria, quer levar presentes para alguns amigos – provavelmente outros convidados, uma vez que deixou claro desconhecer os donos da casa onde terá a ceia.   Para alguém chamada Patsy ele compra um livro de poemas de Verlaine com gravuras do pintor Bonnard.  Para Mike ele leva  uma garrafa de um sofisticado licor italiano que achou em Park Lane, um endereço caro de New York. Dá a volta e entra na tabacaria. Lá dentro ele vê a fotografia da cantora Billie Holiday na primeira página do jornal –  a notícia da morte dela. O nome de Lady Day não aparece no poema – sabemos que é Billie pela citação do nome do pianista que a acompanhava – Mal Waldron.
tela de Pierre Bonnard - Mulher com papagaio
Começa a suar de tristeza – ou talvez seja o calor. Recorda a última vez que a ouviu cantar -- num clube noturno em voga à época – o 5 Spot.   Ele estava encostado na porta do banheiro embevecido com a voz sussurrante de Billie que cantava ao dedilhado do piano até deixar todo o público sem ar inclusive o poeta e o pianista
(abaixo, o poema propriamente dito, tradução de Ruy de Vasconcellos  (Revista Zunái)

O DIA EM QUE A DAMA MORREU 
É 12:20 em Nova York, uma sexta
três dias depois da queda da Bastilha, sim
é 1959 e ando atrás de um engraxate
porque vou desembarcar do 4:19 em Easthampton
às 7:15 e então vou logo jantar
e não conheço as pessoas que vão me dar de comer 
Caminho pela rua mormacenta abrindo-se ao sol
Peço um hambúguer e um maltado e compro
um horrendo NEW WORLD WRITING  para ver o que
poetas em Ghana estão fazendo esses dias
                                                 e vou ao banco
e a Senhora Stillwagon (primeiro nome Linda, ouvi uma vez)
sequer confere meu saldo pela primeira vez na vida
e no GOLDEN GRIFFIN consigo um Verlaine fino
para Patsy com desenhos de Bonnard, embora tenha
pensado em Hesíodo, trad. Richmond Lattimore, ou
a nova peça de Brendan Behan, ou Le Balcon ou Lê Négres
de Genet, nada disso, insisto no Verlaine
depois de praticamente adormecer de dúvida 
e para Mike só avanço pela loja de destilados da
PARK LANE e peço uma garrafa de Strega e
logo retorno de onde eu viera, 6ª Avenida
para a tabacaria do Teatro Ziegfeld e
distraído peço um maço de Gauloises e um maço
de Picauyunes e um NEW YORK POST com o rosto dela  

e estou suando em bicas agora e pensando em
recostar-me ao pórtico do 5 SPOT
enquanto ela sussurrava uma canção ante o piano
para Mal Waldron e todo mundo e eu parávamos de respirar 

domingo, 4 de novembro de 2012

as EPIFANIAS de Joyce traduzidas por Piero Eyben

A editora Iluminuras acabou de lançar o livro Epifanias de James Joyce com tradução de Piero Eyben, escritor, pensador, poeta e professor, atualmente radicado em Brasília. Além da tradução, creio que inédita em Português,  Eyben presenteia o leitor com um estudo sobre o tema. A  "orelha" é de Dirce Waltrick do Amarante -- reconhecida especialista na obra do escritor irlandês.  O texto da Prof. Dirce antecipa o teor da obra
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Epifanias - Dirce Waltrick do Amarante
Certa vez, Joyce olhou pela janela de seu apartamento e viu uma mulher no edifício ao lado puxando a corrente de descarga da privada. Para ele, essa cena aparentemente banal continha fortes implicações eróticas. Essa teria sido uma das muitas epifanias profanas de Joyce.
Richard Ellmann lembra que um dos divertimentos favoritos do escritor era destruir velhas coisas solenes. Num determinado momento, o escritor irlandês ficou “contente por encontrar valor no que se esperava que ele condenasse como comum e vulgar”. Era assim que ele reinventava o mundo.
Joyce teria “encorajado” Leopold Bloom (Ulisses) – só para mencionar seu mais célebre personagem – a infundir singularidade às coisas comuns. Como afirma Ellmann, “Bloom difere dos dublinenses menos importantes porque sua poesia interna é contínua, até nas situações menos promissoras”. Em Joyce, não há mais uma prosa, um dizer narrativo típico, “mas sim um feixe de forças, do tracejado que compõe sua própria ausência”, diz Piero Eyben no prefácio de sua bela tradução das Epifanias.
Quando lemos Joyce, precisamos voltar nossos olhos para o instante da experiência que emerge graças a uma revelação interior abrupta. A epifania seria justamente essa súbita manifestação, esteja ela na vulgaridade da fala e do gesto ou em uma fase memorável da própria mente. Aliás, para Hélène Cixous, a epifania seria o “descarrilamento da consciência”.
Joyce acreditava que cabia ao escritor “registrar essas epifanias com extremo cuidado, vendo que elas próprias são os mais delicados e evanescentes dos momentos”, como afirma Eyben. Sendo o maior desafio dessas curtas narrativas aliar a velocidade inesperada à já desgastada experiência do dia a dia. Neste pequeno volume precioso, a tradução de Eyben leva a sério esse desafio."
Piero Eyben, o tradutor, com a mulher, Fabrícia Wallace
(também professora)

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

vida de diplomata

Tenho uma amiga que é "especialista em vida cigana na empresa de Luiz Fachini Gomes" -- eis o modo jocoso que ela encontrou para definir o lado profissional de mulher de diplomata. Sonia Bonzi,  a Soninha, como é amplamente conhecida. Creio que o diminutivo perdura  há décadas devido à pegada jovial desta mulher que percorreu o mundo inteiro. Hoje o casal vive em Túnis - o marido na função de embaixador do Brasil na Tunísia e a esposa nas tarefas de embaixatriz.  Soninha ainda tem fôlego para ser mãe, avó, fotógrafa e bordadeira - tanto no sentido literal, de prendas artesãs, como no de alinhavar palavras e memórias. 
Achei aqui o primeiro capítulo de suas reminiscências, ainda na época do namoro com o futuro diplomata mineiro. 
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"Quando debaixo da minha janela ele cantava “Minha Namorada”, de Vinícius, eu não imaginava qual poderia ser a tristeza do caminho que ele me convidava a percorrer. Fui, lentamente, descobrindo.
Sair de Minas, deixar para trás meus pais, amigos, alunos, o gato angorá, tirou-me do prumo. A viagem de ônibus parecia interminável. Depois de Sete Lagoas a paisagem machucou meus olhos e tive a impressão de que Deus estava sem inspiração quando criou aquelas árvores secas e retorcidas, onde não se viam pássaros, nem qualquer outro tipo de animais. Tudo triste.
Brasília - fotografia de Usha Velasco
E como era longe a capital. As estradas batiam no horizonte e davam a impressão de serem infinitas. Numa manhã de céu muito azul, chegamos. Fui, pela primeira vez, viver longe do chão. Penduramo-nos no segundo andar de um bloco recém construído, já cheio de rachaduras nas paredes e chão que arrebentava em bolhas.
Olhar pela janela, ver a terra vermelha, seca, de onde as árvores brotavam sem vontade, me enchia de saudades dos morros e do verde de Minas.
Fui aos poucos me acostumando com a nova vida. Arrumei um emprego, conheci gente nova, fiz amigos, comecei a entender o significado da música que meu amor cantava debaixo da janela.
Minha origem humilde havia me privado de muitas coisas. Não tive acesso à intelectualidade. Meu diploma de normalista era o único que eu tinha para mostrar. Não conhecia os clássicos, não falava outras línguas, não sabia nada sobre política. Sabia outras coisas: alfabetizar, bordar, fazer crochê,..
Passei a filar cultura, meti-me num curso de inglês, aprendi algumas regras do jogo da vida diplomática. Muitas vezes senti enjoo nas reuniões, assustei-me com as casas cheias de objetos de prata, paredes recobertas de quadros, estante abarrotadas de livros.
o casal com os três filhos em algum lugar do passado
Foi entre os diplomatas que conheci muitos dos meus melhores amigos. Todos muito cultos, finos e generosos. Fui aceita e respeitada, apesar das minhas limitações. Jamais neguei minhas origens e fazia meus amigos rirem contando os casos do interior, as histórias da minha família, as piadas apimentadas que ouvia do meu pai.
Três anos passaram rápidos. Chegou a hora de arrancar as ainda frágeis raízes, que começavam a se firmar no cerrado, que eu aprendi a amar. Deixar o Brasil, despedir dos meus pais, abandonar o conhecido e me lançar em um outro desafio não foi fácil. Derramei litros de lágrimas.
Em Viena, tomei mais consciência do que realmente me esperava nesta vida de acompanhante de diplomata, sem tempo para enraizar. Caminho de mudanças, instalações, adaptações e submissão às novidades. O Embaixador, Chefe do Cerimonial do Itamaraty, dizia que cinquenta por cento da carreira dos maridos dependia das mulheres. Poderia assumir tanta responsabilidade?
Eram tantas as perguntas que eu me fazia. A cabeça não parava e eu duvidava de minha capacidade de ser a “amiga e companheira”, de sobreviver às idiossincrasias do caminho.
residência do embaixador brasileiro em Túnis (foto de Soninha)
Logo na chegada a Viena, fomos recebidos, muito carinhosamente, por funcionários da embaixada. Sem eles, que se tornaram nossos amigos queridos, a vida teria sido insuportável.
Um jantar muito formal nos foi oferecido na residência do Embaixador. Parecia que, entre as intenções do chefe e de sua esposa, estava a de avaliar o desempenho de seus subalternos recém chegados, no caso, nós.
Fui atrás de informações de como me vestir, relembrei as regras de etiqueta que me ensinaram, repassei na cabeça a posição dos talheres, dos copos… Mandamos para a embaixatriz um número ímpar de flores, conforme as normas do protocolo. Determinei que falaria pouco, não usaria “porra”, nem “pô”, como se fossem vírgulas. Não soltaria nenhuma gargalhada. Piada não contaria.
A dona da casa recebeu-nos com um olhar que nos despiu. Meu marido não lhe beijou a mão como ela esperava. Minha espontaneidade esvaiu-se, minhas mãos suavam. O sangue ferveu e afogueou meu rosto. A voz ficou pequena e uma timidez desconhecida me fez encolher os ombros.
Meus olhos buscaram refúgio na suntuosidade dos salões, nos móveis de época, enfeitados de dourado e forrados de brocados “bordeaux”. Depois vagaram pelos quadros pendurados nas paredes e pelas vitrines de cristal bisotado, repletas de obras de arte e preciosidades…
As mãos suadas, o maxilar trincado…
Tudo muito diferente!…

Sobre a mesa de jantar muitas flores, candelabros e velas, sal e pimenta em cestinhas de prata, “sous-plats”, cinzeirinhos individuais, cartões com os nomes dos comensais, cardápio escrito à mão, lavandas, objetos de porcelana, todos os tipos de pratos, pratinhos, taças e talheres.
Os garçons serviam à francesa. Eu à direita do anfitrião. Temia fazer o garçon derrubar a travessa, deixar os talheres caírem, perder a carne no caminho até o prato… Reprimia os gestos com medo de quebrar o copo de vinho branco, ou pior, o de vinho tinto e manchar a toalha de linho bordada. Não sabia se cruzava as pernas, se me encostava no espaldar, se descansava o braço na mesa, se saia correndo…
Tudo muito formal, muito distinto do que me era conhecido.
Lembrei-me da mesa da casa dos meus pais. Um prato, um garfo e uma faca para cada um. Sempre virados para baixo a fim de evitar pouso de mosca e poeira.
Fui a primeira a ser servida.
Peguei um pãozinho e logo me arrependi. Não sabia em qual dos pratinhos depositá-lo. Passar recibo de que não sabia nem onde pôr o pão eu não queria. Mantive o pãozinho entre os dedos. Continuei a conversa com o embaixador, muito elegantemente vestido. Gesticulei comedidamente. O pãozinho na mão.
Quando minha amiga, mais fina e experiente, não titubeou ao escolher o pratinho, imitei-a. Grande alívio!…
A comida chegou fria e eu me permiti achar pouco fino.
Lá em casa a comida era servida quentinha, soltando fumaça, cheirosa.
Um copo de vinho branco, outro de vinho tinto e já estava mais à vontade. Ouvi mais do que falei, mas não fiquei muda. Contei até caso. O Embaixador foi receptivo com minha juventude. Riu, brincou.
Soninha, na minha imaginação

O café tomado na outra sala foi mais constrangedor. Tive que ficar perto da embaixatriz, que, depois de falar de sua origem quase nobre, quis saber o sobrenome da minha família. Foi difícil segurar o riso. Como ela poderia conhecer meus antepassados, imigrantes italianos no Espírito Santo, colonos em lavoura de café, donos de venda?
Meu olhar passeava pela escadaria imponente, que descia em curva até o “hall” de entrada.
"Técnicas para festas" - desenho de Saul Steinberg

Não combinava comigo aquele constrangimento cerimonioso. Onde estava a moça animada, alegre e falante lá de Minas? Anjos passavam levando a conversa. Eu não tinha o que dizer quando a embaixatriz falava de porcelanas, pratas, baixelas… Menos ainda quando contava de seus encontros com gente da altíssima, dos casamentos pomposos ou divórcios reais… A empolgação da embaixatriz com a aristocracia me deixava perplexa. Eu não conhecia rei, rainha, príncipe, conde ou duquesa. Nem os nomes dos burgueses notáveis eu sabia. Desconhecia a genealogia dos Habsburg, nunca tinha ido à Grécia, nem sequer tinha visto um iate de perto…

Voltei para casa desconsolada, descrente do meu sucesso como mulher de diplomata, sem nenhum entusiasmo com o caminho que começava a percorrer.
…E chorei bem de mansinho sem ninguém saber por quê…"
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outra crônica de Sonia Bonzi pode ser encontrada aqui
e aqui

sábado, 27 de outubro de 2012

Billie Holiday (LADY DAY)



Nova York, manhã de 17 de julho de 1959.  A cantora Billie Holiday morre aos 44 anos num hospital do Harlem com o organismo debilitado pelo uso descontrolado de álcool e drogas. Silencia a voz de uma grande cantora de jazz.  A história dolorosa de Billie é bem conhecida – quando ela nasceu seu pai tinha 17 e a mãe apenas 13 anos.  O pai era guitarrista, banjoísta e egoísta. Largou as duas. Saiu da cidade. Na infância sem inocência Billie foi violentada por um vizinho. Mudou-se com a mãe para New York. Passou fome, se prostituiu ainda adolescente, teve casamentos e relacionamentos tumultuados, adquiriu o vício da heroína e a fama eterna. Foi o saxofonista norte-americano Lester Young que lhe deu o apelido de Lady Day. Os dois gravaram juntos cerca de cinqüenta canções repletas de swing, cumplicidade e talento invulgar.
quadro mostrando Lady Day com orquestra
Se fosse pela biografia, Lady Day seria Lady Night – até porque passou boa parte da existência apresentando-se em casas noturnas.  A primeira negra a se tornar cantora em bandas de branco no auge da segregação racial nos Estados Unidos.  Costumava terminar os shows cantando Strange Fruit, uma canção de protesto contra o racismo. A música compara  "as estranhas frutas" com os cadáveres dos negros linchados e dependurados pelos pescoços nas árvores do Sul do país.   Em 1999 – quarenta anos depois da morte de Billie – a revista Time elegeu Strange Fruit como a canção do século.
Há uma versão em português de Carlos Rennó

"Árvores do Sul dão uma fruta estranha
Folha ou raiz em sangue se banha 
Corpo negro balançando, lento
Fruta pendendo de um galho ao vento", dizem os primeiros versos.
A sequência é de arrepiar:
"Cena pastoril do Sul celebrado
A boca torta e o olho inchado
Cheiro de magnólia chega e passa
De repente o odor de carne em brasa
Eis uma fruta para que o vento sugue
Pra que um corvo puxe, pra que a chuva enrugue
Pra que o sol resseque, pra que o chão degluta
Eis uma estranha e amarga fruta".
"Lady Sings the Blues" 
Dona de voz única, Eleanora Fagan (seu nome de batismo) se fez conhecida  pela interpretação emocional doce e sensual de suas músicas, repletas de elementos trágicos, melancólicos, transbordantes de dor e tristeza. Reflexo da experiência pessoal de uma mulher negra, marginalizada pela sociedade de seu tempo. 
A artista influenciou os rumos do jazz -- virou mito. Fazia da voz um requintado instrumento e não cantava uma música duas vezes da mesma forma.   De 1933 a 1944, Lady Day viveu seu apogeu – depois o descontrole do vício começou a afetar o frescor e a jovialidade de sua voz. Mesmo vivendo a decadência, bastava Lady Day interpretar os primeiros versos de um blues, para o fiapo de voz assumir proporções gigantescas.
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ouça  strange fruit    

domingo, 21 de outubro de 2012

a casa do Clodovil em Ubatuba

Ontem de manhã meu marido e eu resolvemos sair de Paraty para passear e almoçar em Ubatuba. No caminho, decidimos passar na praia do Léo para visitar a casa de praia do Clodovil. Lembrando que além de estilista, Clodovil foi um dos deputados  federais mais votados no estado de São Paulo em 2006.
Decidimos parar na mansão porque neste final de semana ela está aberta ao público interessado em comprar móveis, louças, quadros, livros ou alguma estatueta de sapo da coleção do figurinista.  Um bazar, do tipo "família vende tudo."
 A casa está situada no meio da Mata Atlântica, em cima de um morro, uma visão estonteante da natureza. Como não era permitido subir de carro até lá, o jeito foi esticar as pernas na subida -- uma bela caminhada apreciando as árvores e o paisagismo.
Temíamos um programa infeliz, com gente demais, talvez até um pouco de tumulto. Boa surpresa: havia poucas pessoas quando chegamos, nem foi preciso enfrentar fila, talvez por ser distante da cidade ou porque houve pouca divulgação da venda. A foto acima mostra a "sala azul" com obras originais de pintores brasileiros famosos como Scliar, Aldemir Martins e outros.  A curiosidade se aguçou -- foi ótimo andar por tanta sala e quarto sem dono (oito suítes).
Achei sobretudo interessante esta sala de estar com chão singular:  sem piso industrializado, os pés na areia fofa da praia.  Quando o dono da casa era vivo, mandava os empregados desenharem "ondas"  na areia trazida da beira-mar.
Outra peculiaridade - os cômodos da mansão são "desmembrados" -- cada vez que se muda de ambiente é preciso passar por jardins internos, olha só as jabuticabeiras fazendo parte da casa, entre a sala e a cozinha.  Mesmo sem cuidados os espaços verdes ainda são deliciosos --  a vista sempre encontra árvores, plantas ou mar.
Na decoração,  a mistura do clássico com o rústico. O teto revestido de palha esconde os caibros do telhado
um dos terraços da residência com vista para a Praia do Leo
... e até uma capelinha, quase em ruínas, uma graça, no meio das árvores
compramos alguns objetos de boa qualidade por precinhos de bazar -- a melhor aquisição foi um par de panelas de cobre made in france
esta moringa artesanal, assinada por "nica"
e alguns outros poucos objetos de cozinha como a travessa de porcelana com suporte de ferro pintado. Havia serviços de louça belíssimos, foram comprados por donos de restaurantes de São Paulo.

Escrevo agora quase dois anos depois que estivemos na casa do Clodovil. A data no calendário marca 18.8.2014. Àquela época, eu não sabia que este post despertaria tanto interesse;  é um dos mais procurados aqui do blog, com quase 7 mil acessos. Ontem à noite, organizando meu banco de imagens encontrei mais algumas fotos da casa. Imediatamente decidi trazê-las para cá. Esta do quarto salmão, a memória não ajuda... Não sei dizer com precisão se era o quarto da mãe do Clodovil ou se era um quarto de hóspedes comum. A cama já estava se deteriorando, como é possível perceber. A roupa de cama e as cortinas de renda estavam ainda em bom estado.

Um recanto do  jardim  decorado com plantas em vasos e espelho de água.
As esculturas modernistas ficavam na beira da piscina, de frente para o mar. Lindas! Gostaríamos de tê-las comprado, mas eram caras.
  A vista para o mar era belíssima, assim como para a mata. Um lugar esplêndido.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

estrada paraty-cunha, a pé

queda d'água aos pés de Paula Carpi

Paraty em foco, é um acontecimento que acontece no início da primavera desde 2005.  Nessa época, Paraty é invadida por caçadores e apreciadores de fotografia que passam cinco dias trocando informações, compartilhando saberes, participando de oficinas e assistindo a imagens projetadas nos paredões brancos da cidade colonial. No último evento, as ruas empedradas do Centro Histórico estavam repletas com  milhares de participantes (calculados em 6 mil), quase todos com uma câmera na mão. Paulistanos e cariocas, mas também sulistas e mineiros, sem contar os convidados internacionais. Pela localização de Paraty, todos chegaram por via rodoviária. Mas um grupo, organizado em torno do conhecido fotógrafo Marcos Santilli, ousou um pouco mais: veio a pé desde Cunha até Paraty.
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Veja a matéria da revista de Haroldo Castro para a revista Época. 
"Marcos Santilli, um fotógrafo com mais 40 anos de experiência – ele se autodenomina um fotosaurus – mora em Cunha, no alto da serra. Em linha reta, Cunha está a apenas 29 km de Paraty. Mas pela estrada que ziguezagueia a Serra do Mar a distância sobe para 48 km. A estrada fazia parte do Caminho Real e era uma das várias alternativas para entrar Brasil adentro. Desde o século 17, quando Paraty se tornou um importante porto, escravos chegavam da África para trabalhar no interior. O ouro descia das Minas Gerais até Paraty por estas estradas empedradas de cargas e burros.
Santilli escolheu uma das variantes do Caminho de Ouro para levar colegas e alunos serra abaixo. Nada melhor do que falar sobre fotografia no meio da Mata Atlântica e em uma de suas mais belas reservas, o Parque Nacional Serra da Bocaina. A oficina, organizada por Katia Scavacini, começou em sua Pousada dos Anjos na noite anterior, com uma explicação histórica da região e de como os Caminhos do Ouro – uso a palavra no plural, pois o contrabando criou inúmeras bifurcações – escoaram o precioso metal em direção ao porto.
fotografia do grupo pelo guia Nino
Na manhã seguinte, éramos dez pessoas na trilha. O guia local Nino abria a fila e oito fotógrafos iam no meio do pelotão: o próprio Marcos, seu filho Luã, Luiza Bongir de Belo Horizonte, Joseane Daher de Curitiba e Paula Carpi, Liliane Meira e Giselle Paulino de S. Paulo. Eu também estava lá. Quando Marcos me convidou a descer um trecho da serra a pé, adorei a ideia de estar no mato fotografando durante um dia inteiro.
Saímos do pé da Pedra da Macela e durante uma hora descemos por campos abertos até um vale
pedra da macela (1840m) fotografia de Luã Santilli
 De lá, entramos na mata fechada, subimos uma bela encosta e encontramos um dos trechos do Caminho de Ouro. 
pai e filho na fotografia -- Marcos e Luã
Em diversos pontos do Caminho do Ouro, muros de até um metro foram levantados para que os animais não caíssem na ribanceira. Foto © Marcos Santilli
cogumelos alucinados de cor,  foto de  Daher
bromélia no caminho por liliane meira
Chegaram na cachoeira dos sete degraus (olha que nome lindo), oito horas depois. Final da caminhada.
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laboratório de fotografia e de vida
belíssimo
bravi
no próximo ano, pretendo juntar-me ao grupo
(se é que aceitam anciãs)