segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Que livro você levaria para uma ilha deserta? (G. K. Chesterton)



Gilbert Keith Chesterton é um escritor inglês do início do século XX, considerado pela crítica como um dos maiores criadores de histórias policiais de todos os tempos — ao lado de Agatha Christie, Arthur Conan Doyle e Edgar Alan Poe. Louvado por autores-monstros como o argentino Jorge Luis Borges (para quem ele fazia "um milagre a cada parágrafo"), Chesterton teve uma carreira intelectual profícua e diversificada: foi contista, romancista, caricaturista, jornalista, humorista, polemista e biógrafo.
Achei divertido ler o que Borges escreveu sobre a biografia de Chesterton: "Gravemente observar que de todos os livros de Chesterton o único que não é autobiográfico é o livro Autobiografia. Não é um paradoxo muito memorável, mas é quase a pura verdade".
Do seu leque de personagens, o que lhe rendeu fama internacional foi o Father Brown,  dublê de padre e detetive, conhecedor da maldade e dos labirintos da alma humana.  O preferido de Borges... "Como livro inicial e de iniciação, eu indicaria, antes, qualquer dos cinco volumes da Gesta do Padre Brown".

Um dia perguntaram a Chesterton qual o livro que ele levaria para uma ilha deserta em alto mar, caso lhe acontecesse estar num navio que fosse a pique. Provocador, o prosador deu uma resposta desconcertante para uma pergunta que poderia ser embaraçosa e difícil para alguém que supostamente devorava livros como quem saboreia petit gateaux ou espumas. A resposta mais comun costuma ser A Bíblia ou outro livro sagrado. Alguém poderia pensar em Robinson Crusoe, talvez A Ilha do Dr. Moreau, de H. G. Wells ou ainda a volumosa enciclopédia. Os modernos desejariam um tablet e o baixaki correndo o risco de só encontrar rede furada. Chesterton não raciocinou nem como erudito nem como místico: confiou na lógica e deu a resposta que lhe parecia evidente: um manual de construção de botes.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

LINDA VILA: a praia de santo andré (Bahia)

Antes da mudança para Paraty moramos 6 anos numa praia do sul da Bahia, mais precisamente no povoado de Santo André, um distrito de Santa Cruz Cabrália. Lugar bonito por natureza... rio largo e limpo, praias preservadas, povo acolhedor e imbuído de um precioso sentimento comunitário. A mais recente iniciativa visa a preservação da igreja católica, um prédio construído com doações e que agora necessita limpeza, pintura e arremates como um pequeno jardim. 
a obra de restauro foi iniciada
A jornalista Léa Penteado, que lá reside, explica os detalhes:
"O Zé e o Giba começaram a pensar em algumas ações para a nossa vila ficar mais bonita. Surgiu assim o LINDA VILA cuja primeira intervenção está sendo na Igrejinha... Estão retirando as camadas de tinta, preparando para uma nova pintura, um jardim na frente, uma cruz no alto e um foco de luz...
Outras intervenções estão sendo pensadas e para tanto precisamos levantar recursos...
Surgiu assim a camiseta LINDA VILA que será lançada no sábado dia 8 de setembro, às 5 da tarde na Fabrica de Doces, em frente a Igrejinha...
Venha para conhecer a proposta e tomar um chá. Traga também suas ideias, este é um trabalho coletivo, sua participação é fundamental, afinal estamos todos na mesma vila... Se você está fora de Santa Cruz Cabralia e quer participar adquirindo uma camiseta, envie email para santoandrebahia@gmail.com"  

já encomendei a minha

  

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

casa para morar em Paraty

Então foi hoje, dia 5 de setembro, que assinamos a escritura de um terreno em Paraty. Ao lado desta casa amarela -- onde estão as goiabeiras. No momento é só um chão de terra batida, sem paredes, sem teto, sem colchão. Vamos construir mais uma casa, o moreno e eu, seres errantes o suficiente para  combinar tacitamente que quando a gente acabar de construir a casa, a gente fecha tudo com chave e sai pra viajar.
Nós só precisamos de um lugar para voltar.
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(...) e esta viagem em busca da Ítaca perdida pode ter-se como virtualmente terminada no dia em que a própria errância toma consciência de si como errância de ninguém.
Eduardo Lourenço
citado no livro 
Escritura do Retorno
Mallarmé, Joyce e Meta-signo
de Piero Eyben
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e é por aqui que pretendemos estacionar nos próximos 20 ou 30 anos
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Nem você é Pedro nem me chamo Helena, estes são nomes de grandiosa coletividade; nós dois somos da maioria silenciosa, da insignificância, do passar-batido geral.
Não faz mal, querido, os medíocres também amam.


terça-feira, 4 de setembro de 2012

estrada Paraty-Cunha para principiantes

Nunca ouvira falar de Cunha antes de nos mudarmos da Bahia para o estado do Rio -- não tínhamos o hábito de viajar para localidades montanhosas. Agora que moramos em Paraty estamos explorando os vilarejos das serras que nos circundam. De Cunha conhecemos primeiro os produtos da roça - toda semana desce uma camionete com produtos orgânicos e bichos "caipira":  galinha, pato, porco, ovo... Sábado passado resolvemos conhecer a cidade subindo pela famosa estrada do parque nacional. Cunha se situa numa ferradura formada pelas Serras do Mar, Bocaina e Quebra-Cangalha. Já sabíamos da fama de boniteza da estrada, toda verde de Mata Atlântica. Uma festa para os olhos, tanto a paisagem desdobrada em serras infinitas, como
os detalhes: as flores, as cores, o efeito da luz sobre a vegetação
É perto, apenas 48 kms. Só tem um probleminha: há um trecho sem asfalto que é incrivelmente ruim. Um rio seco, pedras e buracos. Levamos cerca de 50 minutos para percorrer 9 kms, bem devagarinho... Estávamos num carro alto e com tração nas 4 rodas e assim mesmo demos uma "raspadinha" no chão. Fiquei espantada com a audácia dos carros menores que encontramos no caminho.  Vimos um fusca e uma Brasília amarela servindo de lotação: transportam passageiros entre Cunha e Paraty. A Brasília, coitada, caiu numa vala da estrada e precisou parar.
Quando finalmente chegamos, demos uma volta nas ruas adjacentes à praça da matriz, olhamos o mercado municipal que é bonitinho e tem artigos próprios do lugar como as botinas, a excelente cerveja artesanal dos alemães, as frutas e verduras locais. Dos 25 mil habitantes, cerca de 12 mil vivem na área rural. Desde 1695 os aventureiros  andavam na região -- subiam a serra pela trilha dos índios guaianás em busca do eldorado - o ouro e as pedras preciosas das Minas Gerais.  Naquela época Cunha era chamada de "Boca do Sertão" - tornou-se uma parada obrigatória  para o descanso e reabastecimento das tropas. Em 1948 a cidade foi transformada oficialmente em Estância Climática pelo governo do estado de São Paulo.  Como é típico em cidade do interior a principal atração é ...fazer nada. Sentamos numa agradável padaria com cadeiras e mesas colocadas num trecho de rua onde não passa carros. Depois do almoço resolvemos regressar a Paraty, preocupados com a estrada esburacada - não queríamos passar pelo famigerado trecho no escuro... Deixamos os passeios (cachoeiras, Pedra da Macela, ateliês de cerâmica) para uma próxima visita.
A volta foi com adrenalina: Cláudio precisava parar para analisar qual parte da estrada seria menos ruim. Confesso que sentia medo quando encarava o precipício... cheia de buracos, pedras, estreita e ainda beirando o abismo... 
A estrada já foi interditada várias vezes... Encontramos um acidente sério, este carro que precisou ser guinchado... Se alguém pretende ir por lá, veja primeiro esse vídeo (1m22) que achei no youtube http://youtu.be/q_dAOoT3G70

domingo, 26 de agosto de 2012

mudar tudo para não mudar nada


Filme "O Leopardo" de Luchino Visconti, com Cláudia Cardinale
O título do post remete a "Il Gattopardo" , romance do escritor Tomasi di Lampedusa, um nobre italiano. O livro popularizou-se na Itália; nele Lampedusa retrata a família do príncipe de Salinas, cujo brasão ostenta um leopardo -- daí o título do livro. Os acontecimentos se dão na época do Risorgimento, o movimento da história italiana de unificação do país (entre 1815 e 1870). Garibaldi e nossa Anita são heróis neste período. Talvez o trecho mais memorável do livro seja o discurso do simpático sobrinho do príncipe de Salinas, o Tancredi, um príncipe também, só que arruinado e oportunista. Tancredi incita seu tio cético e conservador a abandonar sua lealdade aos Bourbons e aliar-se aos Saboia
Cquote1.svg A não ser que nos salvemos, dando-nos as mãos agora, eles nos submeterão à República. Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude."
Tancredi sabe ou presume que a mudança será apenas   aparente  e que os privilégios da aristocracia serão mantidos. 
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Em outra instância, lembro de ter escutado diversos terapeutas comentar que muitas pessoas que fazem terapia, na verdade, não desejam mudar. Ou melhor: querem mudar alguma coisa, mas não a essência.

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Acho que a fábula de Millor Fernandes reflete bem esta situação, com o humor que lhe é típico...
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"Olin-Pin, abastado negociante de óleos e arroz, vivia numa imponente mansão de Kin-Tipê. Sua posição social e sua mansão só não eram perfeitas porque, à direita e à esquerda da propriedade, havia dois ferreiros que ferravam ininterruptamente, tinindo e retinindo malhos, bigornas e ferraduras. Olin-Pin, muitas vezes sem dormir, dado o tim-pin-tin, pan-tan-pan a noite inteira, resolveu chamar os dois ferreiros e ofereceu a eles mil ienes de compensação, para que ambos se mudassem com suas ferrarias. Os dois ferreiros acharam tentadora a proposta (um iene, na época, valia mil dólares) e prometeram pensar no assunto com todo empenho. E pensaram. E com tanto empenho que, apenas dois dias depois, prevenidamente acompanhados de advogado, compareceram juntos diante de Olin-Pin. E assinaram contrato, cada um prometendo se mudar para outro lugar dentro de 24 horas. Olin-Pin pagou imediatamente os mil ienes prometidos a cada um e foi dormir feliz, envolvido em lençóis de seda e adorável silêncio. Mas no dia seguinte acordou sobressaltado, os ouvidos estourando com o mesmo barulho de sempre. E quando ia reclamar indignadamente pela quebra do contrato, verificou que não tinha o que reclamar. Os dois ferreiros tinham cumprido fielmente o que haviam prometido. Ambos tinham se mudado. O ferreiro da direita tinha se mudado pra esquerda, e o da esquerda tinha se mudado pra direita."
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MORAL: Cuidado quando a esquerda e a direita estão de acordo

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

carta para um amigo de santo andré da bahia


Caro amigo,
Depois de tanto tempo ausente passei hoje no redefurada e vi que você havia se tornado o mais recente membro do blog, o de número 118 – uma categoria especial de visitante que se dá ao trabalho de colocar seu nome clicando na faixa azul onde se lê “participar deste site”. Acho esta atitude tão gentil que anoto todos os nomes cuidadosamente numa folha à parte.   Já fui muitas vezes visitar as páginas dessas pessoas na calada da noite – a maioria desconhecida na vida real – mas raramente deixo recado, gosto de olhar em segredo.
Quero lhe dizer que essa última viagem para o povoado de santo andré foi particularmente significativa. No início uma sensação de perda -- quando abraçava uma pessoa tinha um desgosto de despedida, quando olhava para o rio pensava que ele não chegaria ao mar, e que as folhas cairiam das árvores a qualquer momento sob a chuva de um vento leste valente.  O espírito aos poucos foi se acalmando, comecei a me sentir em casa novamente – e o mais estranho – mais em casa do que quando eu morava lá. É que fui compreendendo de uma vez por todas que pertencer a um lugar é um sentimento íntimo que não precisa de passaporte nem de carteira de habilitação. É uma questão de identidade, de sintonia, não carece da autorização de ninguém.  Nem exige exclusividade.  Dentro de nós – você que o diga, tão viajado que é – vão se ajeitando pedaços de cidades, de muros, de raízes, de olhos de gente.
Um mapa-múndi de memórias, sonhos e reflexões.
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Abraços, e até a próxima curva da estrada.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Santo André (Bahia) Dicas de viagem

"Para quem planeja tirar férias, a cidade de Santo André, na Bahia, é uma das melhores pedidas. É possível conhecer pessoas de todos os lugares na cidade, encontrar festas, ótimos restaurantes e bares com tipos de comida e música variados, além das mais belas e exóticas praias.
Além disto, é possível fazer mergulho em corais de Araripe e Coroa Alta, pesca oceânica em Royal Charlotte Bank, além de passeios de jipes pelas prais, com paradas para almoços em vilas de pescador.
Santo André, na Bahia, é uma cidade litorânea conhecida pelas suas grandes e bem frequentadas festas e suas exóticas praias. É uma das cidades mais requisitadas do sul da Bahia, em temporadas de férias, e possui um bom suporte para turistas, que são nacionais ou, muitas vezes, estrangeiros.
Santo André conta com as festas e praias mais badaladas do sul da Bahia, além de ser rica culturalmente: é possível encontrar bares tailandeses, indiano, baiano… Tudo isto graças a grande quantidade e variedade de pessoas que frequenta o lugar: é fácil encontrar pessoas de todas as nacionalidades ou de todos os estados brasileiros conhecendo a cidade.
A cidade possui construções típicas baianas: muito coloridas e conta com um bom calçamento e bastantes bares e restaurantes de estilos variados: você encontra desde luau, à música eletrônica e axé: tudo ideal para uma boa temporada de férias.

Santo André, na Bahia, por ser uma cidade litorânea, conta com muitos quiosques e restaurantes de peixes e frutos do mar, o maior destaque da cidade, embora seja possível encontrar bares de comidas tailandesa, indiana e comidas típicas baianas.
Santo André é muito conhecida por suas exóticas praias, que são próximas a rios, mangues, mata Atlântica nativa, recifes e coqueiros. Muitas são semi-desertas e possuem piscinas naturais. Grande parte delas conta com quiosques prontos para servir comidas tipicamente praianas.
Destaques para: Praia das Tartarugas que conta com piscinas naturais, areias grossas e muitos coqueiros. Taípe, a praia mais selvagem e reclusa da cidade, que conta com enormes falácias e nuances, é boa pedida para quem quer algo mais calmo e reservado. Há também a praia de Ponta de Santo Antônio, que possui águas claras, ondas fracas e muitos coqueiros. Mogiquiçaba, com muitas aves marinhas, indicada para prática de surf e, por último, a Ponta de Santo André, deserta e indicada para banhos, pesca, mergulho e atividades náuticas em suas águas turvas.
Por ser uma cidade bastante turística e visitada, é muito fácil encontrar vários tipos de hotéis, pousadas, resorts, etc, com preços e estilos variados por toda a cidade. Há hotéis familiares, hotéis dedicados exclusivamente a turistas e alguns possuem até pacotes e atividades especiais para feriados,
Belmonte, uma cidade histórica um pouco distanciada do centro de Santo André, apresenta a arquitetura típica da cidade do século XIX, tempos do cacau. É possível observar diversos tipos arquitetônicos presente na cidade e aprender um pouco sobre a história do local e da Bahia comoum todo"
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A matéria acima, juntamente com as fotos, foram copiadas deste site de viagens
http://www.viagemnaboa.com/destinos/santo-andre-guia-de-viagem-dicas-e-onde-ficar
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Contém alguns elementos fantasiosos como "passeios de jipes pelas praias" (a circulação de carros na praia é proibida) e essas festas indianas e tailandesas... O autor se confundiu.
Santo André tampouco se notabiliza pelo axé... Você precisa ir lá para ver e sentir pessoalmente.
É LINDO, seus moradores são simpáticos e hospitaleiros, é um local bem tranquilo.
Boas férias.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

ontem não te vi em babilônia

Tens razão, não pude comparecer ao encontro marcado, precisava viajar para a Armênia em missão: DETRAN. Transferir um automóvel registrado na Bahia para a cidade de São Paulo. Preparei-me de antemão lendo as instruções "passo-a-passo" que encontrei na rede. Foram cinco horas de formulários, carimbos, pagamentos de taxas, vistoria e absurdos - Kafka teria ficado feliz. Uma das etapas era decalcar os números do chassis e do motor do veículo - essa tarefa é feita por dois sujeitos estacionados na calçada lateral; foram eles que preveniram:
- Cuidado com os vistoriadores novos; não estão aceitando os decalques, exigem um laudo fotográfico que custa uma nota
Dito e feito: o vistoriador do Detran quis ver as fotografias do motor. Meu marido argumentou que chegara há pouco da Bahia, não sabia andar direito em São Paulo, tudo é tão difícil por aqui...funcionou (em parte)
- Então vocês precisam ir até o cartório do Bom Retiro fazer uma declaração da proprietária dizendo que se responsabiliza pelo número do motor que consta no decalque
Igreja Armênia, na Avenida Santos Dumont (foto da internet)
Três ruas  na direção da Igreja Central Armênia, vira pra esquerda, continua até o número cinquenta e sete: chegamos no cartório. O atendente magrinho de óculos grossos é dessas pessoas que preferem dificultar a vida dos cidadãos; foi logo afirmando que a identidade estava danificada, não servia. Mostrei a carteira de habilitação. Servia.  Preenchi o cartão com as assinaturas de reconhecer firma e assinei a declaração para o Detran na frente dele.
- Não confere.
-  Comassim? moço... você mesmo me viu assinando aqui no balcão...
Foi preciso repetir tudo, cartão e declaração. Na hora de pagar o serviço, a pergunta inusitada do caixa
- Cadê a segunda via da senha?
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A história é enfadonha, malgrado o final feliz: no último instante conseguimos entregar a papelada no guichê dezessete cujo rosto atrás do vidro nos deu um protocolo para pegar a nova documentação e a placa do estado de São Paulo. Fica pronto em dois dias.
Affffffff
A burocracia é inimiga da solidariedade.
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A estação de metrô Armênia é uma homenagem da cidade de São Paulo aos imigrantes  que para cá se dirigiram no começo do século vinte fugindo do genocídio praticado pelos turcos. Na década de 1980, uma grande mobilização da comunidade armênia conseguiu convencer o então governador Franco Montoro a alterar o nome da Estação Ponte Pequena do metrô para Armênia, que a esta altura já era associada pelos paulistanos com este povo devido à concentração de moradores e estabelecimentos comerciais armênios na vizinhança.
Um grande quadro expõe os nomes daqueles que ajudaram financeiramente na construção da igreja. Os sobrenomes dos armênios terminam sempre com IAN
(revista Época)
Em 12 de novembro de 1985, a nova Estação Armênia foi inaugurada. Há referências ao povo, como a inscrição de poemas no idioma ancestral e duas khatchkarer (cruzes de pedra) do lado de fora, acompanhadas do alfabeto armênio.
O colorido dos afrescos e os lustres de cristal chamam a atenção. Ao lado do altar, estão as imagens de Judas Tadeu e Bartolomeu, os santos que levaram o cristianismo à Armênia. No centro do altar, uma Madona com o menino Jesus, comum em igrejas armênias. 
(Época)

terça-feira, 24 de julho de 2012

andar na rua em são paulo


"Os gêmeos"
Saiu para comprar café na padaria da esquina quando deu de cara com um pequeno aglomerado de pessoas de pescoços esticados para o céu. Acompanhavam com os olhos a trajetória de queda de um balão preto desgovernado. Dois rapazes subiram correndo a ladeira da Rua Dona Avelina; ao passar pelo grupo jogaram o porteiro magricela do prédio  verde contra o portão do edifício.  Um automóvel branco passou zunindo, vindo da rua transversal. O motorista ensandecido cuidava do volante só com uma mão – a outra segurava um revólver. O passageiro do banco da frente também empunhava uma arma de fogo e tinha metade do corpo para fora do carro.  A dupla pedestre retrocedeu com medo das balas: o balão-troféu foi enfiado no banco de trás do veículo.  
Foi-lhe explicado pelos demais que a cena não é rara – os balões são motivo de disputa entre grupos rivais da periferia paulistana. Acompanham o balão até o local da queda. Quem chegar primeiro...  Momentos depois perceberam que outro balão vinha caindo lentamente nas proximidades.
Voltou pra casa sem café, sem pão e sem balão.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

álbum de fotografias

Avenida Paulista
"Não sou Ninguém! Quem és tu?
Tu és - Ninguém - Também?
Então somos um par?"
(Emily Dickson, poeta americana)
Corpos presentes - CCBB

diálogo mudo
definições do Aurélio: levar o cano = mau negócio

sessão livro de cabeceira, último dia da FLIP
o espanhol Vila-Matas leu um poema
de Álvaro de Campos
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"Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco"
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a estrada de Sintra não passa pelo Chile
o carro não era um chevrolet
nem esta pessoa se chama Fernando
(é tudo mentira)

sábado, 14 de julho de 2012

Olympia, de Edouard Manet

 Texto do cineasta Cacá Diegues, publicada no jornal "O Globo", em 2010 
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 "Em 1865, o quadro "Olympia", do pintor Edouard Manet, pai do impressionismo, foi recusado pelo Salão de Belas Artes de Paris. Exposto então no Salão dos Recusados, "Olympia" provocou escândalo sem precedentes. O quadro retratava uma mulher nua deitada na cama, enquanto uma criada negra lhe traz flores e um gato preto, aos pés da moça, nos encara do canto direito da tela. Além de mal pintado, um borrão de cores, atentado à boa pintura de uma época neoclássica, paródica e acadêmica, "Olympia" foi acusado também de indecente e pornográfico. Jornalistas e escritores zombavam de Manet, professores e estudantes de Belas Artes indignavam-se com ele, mães de família em passeatas cobriam o quadro para que não fosse visto. Paris inteira linchava "Olympia".
Somente o escritor e jornalista Émile Zola ousou defender publicamente o pintor e sua obra. Num artigo em que anunciava o nascimento de uma nova arte e de uma nova moral na produção artística francesa, Zola só lamentava a presença do gato preto no canto da tela que, segundo ele, servia apenas como ornamento desnecessário, elemento de distração no rigor poético da composição. Diante do clamor geral, o diretor de seu jornal exigiu que Zola se retratasse e, como o escritor se recusasse a fazê-lo, foi despedido e viu as portas de todos os jornais franceses se fecharem para ele. Manet, como agradecimento por seu gesto, pintou-lhe então um retrato que se encontra exposto no Museu d"Orsay, ao lado do "Olympia".

 Nesse quadro, Zola está a escrever, cercado de livros e, na parede do cômodo, o pintor reproduziu o "Olympia", sem o gato preto no canto da tela."

quarta-feira, 4 de julho de 2012

O valor dos livros

"O filósofo lendo" tela de Jean-Baptiste Chardin, 1734
Em tempos de FLIP, a Festa Literária Internacional de Paraty, a leitura, as palestras, os colóquios e debates têm preenchido meu tempo completamente. Para comentar esta atividade tão gostosa e enriquecedora -- a leitura -- trouxe para cá este artigo escrito por um professor de literatura (blog "O magriço cibernético) onde ele comenta este quadro de Chardin.
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"O primeiro elemento que deve merecer destaque é a roupa do leitor. É importante notar que ele usa uma vestimenta formal, como se tomasse parte de um cerimonial, de um culto. Tanto que porta um chapéu, o que transmite, no contexto, um ar sagrado ao ato que está realizando. Reforça ainda essa atmosfera solene a expressão compenetrada da personagem, o seu alheamento em relação ao que a cerca, além do silêncio que domina o ambiente. Todos esses ingredientes nos ensinam que a leitura é um ato sério, de concentração quase sagrada, pois só assim alcançará eficiência. Infelizmente, são elementos que estão se tornando raros nas gerações atuais, extremamente dispersas e desfocadas. Dominar essas habilidades, portanto, garante uma enorme vantagem diante da mediocridade que impera o pensamento atual.
O segundo elemento importante é a ampulheta, no canto inferior esquerdo do quadro. Ela instala um interessante e poderoso paradoxo. A começar, esse instrumento, que representa a brevidade do tempo humano, se for deitado, vai lembrar o símbolo do infinito. Efemeridade e perenidade em um mesmo objeto. A conjunção dessas qualidades opostas coloca em foco grandes questões ligadas à leitura. A primeira é a de que o tempo que escorre, o qual marca tanto o fluir da vida do leitor quanto o da leitura, evoca a grande e prazerosa angústia do intelectual – a incompatibilidade entre o tanto que se quer ler e o pouco de tempo que se tem de vida para isso.
Outro ponto interessante nesse aspecto temporal é o diálogo entre eterno e passageiro na relação entre o leitor e a leitura. O homem tem uma existência breve, ainda mais quando comparado com a duração das ideias que são veiculadas por um livro. Entretanto, é esse bicho da terra tão pequeno e efêmero que, por meio da degustação de um texto, acaba dando eternidade ao que está em uma publicação. Em suma, esta é superior ao homem, pois o supera em durabilidade; entretanto, essa superioridade só é possível pelo fato de existir alguém, ainda que fugaz, que leia esse volume.
Por fim, o terceiro elemento que merece destaque é o bico de pena que se encontra ao lado da ampulheta. Ele revela que o leitor não assume uma postura passiva de mero receptáculo do que é apresentando pelo livro. Muito ao contrário disso, sua atitude é ativa, pois demonstra uma disposição a fazer anotações, a concordar, a discordar, a resumir, a acrescentar. Ratifica o postulado de que um intelectual lê escrevendo. A verdadeira leitura se faz com escrita. Quem lê bem escreve bem. Quem escreve bem lê bem. Impossível admitir o contrário.
A aceitação de todos esses elementos expostos aqui – nunca é demais repetir – é condição essencial para que a leitura se realize de maneira eficaz, contribuindo para o desenvolvimento do homem em sua plenitude cognitiva e afetiva."