E como é tradicional, haverá a procissão dos barcos. Este aí, parado em frente ao Porto das Canoas, é o Polo Aquático, todo enfeitado.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Vida de pescador (2)

Mas como eu dizia antes, quando o marcador de combustível do barco encostou no zero e a praia de tão distante nem se via, os pescadores afogados naquela maré de azar pediram socorro pelo rádio – Save Our Souls . A cavalaria veio veloz: chegou em forma de fragata para tirá-los daquela canoa-furada. Uma linda, majestosa nau, ancorou nas cercanias do àquela-altura-humilde-Bacana : da barriga da baleia surgiu uma lancha apressada (uma espécie de cavalo de Tróia) contendo 5 Jonas armados com fuzis e me-tra-lha-do-ras de verdade, do tipo ratátátá.
Dois homens abordaram o Bacana; os demais ficaram dentro da lancha circundando o barco, sempre em posição de batalha naval. Vagarosamente, as autoridades marinheiras fiscalizaram tudo: a papelada, a parte mais íntima do barco – onde fica o motor e as engrenagens – e o material de salvatagem. Deram por falta da buzina – buzinar é preciso –, ao que Cláudio contrapôs tem o sino. Aceitaram o sino; afinal, consta do regulamento e funciona no manual.
Porque tanta ostentação de força? Metralhadora?
Eles não sabem com quem vão se deparar: inocentes pescadores ou piratas do mar.
A galera desta onda era formada pelo dono do barco, o comandante Calmon – um homem pacato e de bons ventos – o Elielton, pescador de mão cheia e arrastador de camarão; Emanuel de Ana Gaivota, primeira vez no alto mar (fraquinho de tanto vomitar); Zaqueu, um jovem nativo e Seu Neneco, o marido de Gilma.
Pediram para ver os pescados, àquela altura, todos marcados para distinguir quem pegou dourado e quem pegou guaiúba: é como se fosse a ferradura do dono: cortam o lado esquerdo ou direito do rabo, ou rasgam o nariz, ou furam o olho. Peixe sofre até depois de morto. O oficial ao mirante decidiu assim: Cláudio ficaria como fiel depositário dos peixes – agora pertencentes ao IBAMA devido à falta de licença para pescar e não adiantou explicar que há meses fora pedida só não estava na mão dele por causa da burocracia.
Houve a notificação: uma multa chamada de pane seca, não se sabe quanto vai custar.
Com o óleo diesel doado, voltaram para casa, processo que levou muitas horas marítimas. Cada um pegou seu quinhão pesqueiro menos o Cláudio que resolveu doar para os mais carentes do povoado, pensando em pagar a multa e ver o assunto encerrado.
Agora, já no final desta postagem, o telefone tocou e pela voz do homem daqui de casa percebi que o do outro lado da linha é do IBAMA. Vem mais água por aí.
O dia deu em chuvoso
domingo, 28 de junho de 2009
O thriller da viagem

Acordei com o som macio da chuva tamborilando nas ramarias das árvores e a fugidia imagem de Morgan Freeman que escapava, sorrateiro, de um sonho matinal cujo significado é um enigma pessoal
“adeus madrugada
que um segredo aceso
sobrou lindo ainda
soprando giz” (*)
Depois das abluções matinais (decorei esta expressão dos romances portugueses), abro a mala e começo a empilhar os objetos imprescindíveis para a viagem que se avizinha: as senhas impressas para retirar os ingressos da FLIP que comprei pela internet, as chaves do apartamento e o celular de São Paulo, a caixa de sapatos repleta de drogas legalizadas, a escova de dentes e os óculos.
O resto é silêncio: roupa, sapato, brinco.
Liguei o laptop pensando em postar a nênia(** )que o amigo Piero escreveu para Michael Jackson no http://www.apaneutheon.blogspot.com/ e de quebra ainda trouxe de lá uma escrita de Caetano Veloso.
"passo à lua, mais leve,
lá onde o nunca cresce,
lá onde a mistura já cai:
estranho odor da infância,
esse, ainda permanente,
de luvas e luzes, da pele
e dor – tida – acossada
e respirando, dança."
------------------
O anjo e o demônio da indústria cultural
Por Caetano Veloso
A notícia da morte de Michael Jackson foi um grande abalo. Cheguei ao Teatro do Sesi de Porto Alegre e ao ser informado pensei imediatamente em meus filhos Zeca e Tom. Logo Daniel Jobim me veio à mente. Ele é conhecedor e devoto de Michael desde a infância. Moreno, meu filho mais velho, que é amigo de Daniel, também dedicou afeto intenso à figura desse gênio do nosso tempo. Mas são meus filhos menores que hoje se sentem mais atraídos por seu estilo.Como todo mundo, acompanhei Michael desde que ele era pequeno. Como todo mundo, fiquei siderado pelo cantor e dançarino de "Off the Wall" e "Thriller". Como todo mundo, fiquei entre fascinado, enojado e apreensivo diante das transformações físicas por que ele passou. O que quer que tenha havido entre ele e aqueles meninos cujos pais o processaram, acho-o moralmente superior a esses pais.Michael é o anjo e o demônio da indústria cultural. A serpente do seu paraíso e seu mártir purificador. Os talentos artísticos extraordinários frequentemente coincidem com vidas torturadas e enigmáticas. Michael era um desses talentos imensos. Dançando "Billie Jean" na festa da Motown ele foi sim tão grande quanto Fred Astaire: comentava o Travolta de Saturday Night Fever e o Bob Fosse do Pequeno Príncipe (este, uma influência fortíssima e evidente, que nunca vi mencionada). Vou entrar agora no palco pensando em Tom, Zeca, Moreno e Daniel - e, com um nó na garganta, no sentido da nossa atividade. Ele a representava em sua totalidade, fulgurantemente, tragicamente, divinamente.
-------
(*) versos de Pedro Rocha, poeta carioca
(**) canto fúnebre
sexta-feira, 26 de junho de 2009
Carta para uma amiga
Cara amiga:
Depois que correu os olhos pelas fotos do blog você quis ter notícias mais miudinhas do povo e do povoado. Será saudade? Passei ontem no seu Facebook para uma mensagem de 140 toques – dei uma espiada ao redor logo vi o menininho de olhar esperto. É o sobrinho francês? Ah! Aproveitando a conversa sobre a internet, se na sua caixa postal surgir convite no meu nome vindo do Tweeter simplesmente delete. Eu acessei porque todo o mundo virtual estava falando nisso. Em outra ocasião navegante entrei para olhar com vagar e fui seduzida até o ato da inscrição – entreguei a carteira de identidade, dei senha, meu email, tudo de uso corrente. Quando a permissão apareceu na tela passei um bilhete para minha afilhada de Brasília para testar e ela me respondeu. Foi só. Depois de alguns dias o programa do Tweeter disparou mensagem automática para todos os meus contatos.
São muito independentes, esses softwares.
Na última terça-feira houve uma grande festa de aniversário para o Seu João Capador – você teria gostado tanto! Foi bem perto do local onde você festejou seus próprios cumpleanos no pós-verão deste ano. As pessoas organizaram um festival de atrações com atrevidas piruetas dos meninos e rapazes da capoeira, com a algazarra do pé duro, com o livro que o Leonardo (nosso professor de yoga e padeiro) escreveu contando a estória das ervas do Seu João – que obviamente se chama assim porque nasceu no dia da quadrilha -- pelo bolo tipo de noiva rodeado de meninos e arabescos torcidos de azul doce nas bordas. Mas a cereja do bolo era ver os moradores do lugar, veio tanta gente, os das roças e os de outros lugares, o novo e o envergado e ainda foi possível conversar de música porque colocaram discos alegres de Luís Gonzaga, o Carlos Gardel do forró.
Sabe que ultimamente tem rolado uma transação de terra? A ponta do Mafuá foi vendida – aquela parte do terreno que é mais larga – para uma pessoa que trabalha com cinema, uma produtora – será que finalmente seremos franquia de Cinecittà? Porque aqui preferimos os filmes italianos aos americanos ainda não descobri. Anotei o nome do diretor coreano que você mencionou se me deparo com ele está decidido: vejo. Hoje vamos passar um filme chamado do Outro Lado onde se conhece um pai viúvo, uma prostituta, o filho do viúvo e a filha da puta. Ganhou o prêmio de melhor roteiro no festival de Cannes em 2007. A temática é esta de um mundo sem fronteiras, afinal, qual é a nacionalidade de um rapaz nascido de pais imigrantes turcos na Alemanha que se torna professor de literatura alemã?
Na quarta-feira houve outro evento delicioso: foi apresentado via Cine Cajueiro o primeiro telejornal produzido por adolescentes que participam da radioweb do IASA. O grupo se apresentou completo: cinegrafista, roteirista, repórteres, editor – eles conseguiram! Mal podia crer nos meus olhos: provavelmente vários desses rapazes e moças ainda não têm computador em casa.
(no meio da carta toca o telefone: era a voz do Cláudio -- numa ligação entrecortada compreendo que acabou o combustível zero zero nem uma gota e eles no meio do mar quatro homens, um motor calado e um barco à deriva ai de mim SOS o rádio! falaram no rádio e quem escutou foi um barco da Marinha brasileira um encouraçado, quiçá um Potekim).
Parou ao lado do saveiro: os nautas, estupefatos. Disse-me ele: acho que se as sereias de rabo e peitos tivessem aparecido ali o susto seria menor (e por certo, melhor). Abriram um alçapão, imagino, não deu para perguntar os detalhes, só sei que veio uma lancha cheia de soldados pra cima deles e fiscalizaram tudo, a Marinha e o IBAMA. Cláudio tem carteira oficial de pescador mas como não tinha o outro certificado, a licença para pescar, levaram todos os peixes pescados -- em troca o combustível para chegar na praia.
E agora acho que vou terminar esta cartinha porque fiquei sem concentração. Quando você puder, me escreve.
Na última terça-feira houve uma grande festa de aniversário para o Seu João Capador – você teria gostado tanto! Foi bem perto do local onde você festejou seus próprios cumpleanos no pós-verão deste ano. As pessoas organizaram um festival de atrações com atrevidas piruetas dos meninos e rapazes da capoeira, com a algazarra do pé duro, com o livro que o Leonardo (nosso professor de yoga e padeiro) escreveu contando a estória das ervas do Seu João – que obviamente se chama assim porque nasceu no dia da quadrilha -- pelo bolo tipo de noiva rodeado de meninos e arabescos torcidos de azul doce nas bordas. Mas a cereja do bolo era ver os moradores do lugar, veio tanta gente, os das roças e os de outros lugares, o novo e o envergado e ainda foi possível conversar de música porque colocaram discos alegres de Luís Gonzaga, o Carlos Gardel do forró.
Sabe que ultimamente tem rolado uma transação de terra? A ponta do Mafuá foi vendida – aquela parte do terreno que é mais larga – para uma pessoa que trabalha com cinema, uma produtora – será que finalmente seremos franquia de Cinecittà? Porque aqui preferimos os filmes italianos aos americanos ainda não descobri. Anotei o nome do diretor coreano que você mencionou se me deparo com ele está decidido: vejo. Hoje vamos passar um filme chamado do Outro Lado onde se conhece um pai viúvo, uma prostituta, o filho do viúvo e a filha da puta. Ganhou o prêmio de melhor roteiro no festival de Cannes em 2007. A temática é esta de um mundo sem fronteiras, afinal, qual é a nacionalidade de um rapaz nascido de pais imigrantes turcos na Alemanha que se torna professor de literatura alemã?
Na quarta-feira houve outro evento delicioso: foi apresentado via Cine Cajueiro o primeiro telejornal produzido por adolescentes que participam da radioweb do IASA. O grupo se apresentou completo: cinegrafista, roteirista, repórteres, editor – eles conseguiram! Mal podia crer nos meus olhos: provavelmente vários desses rapazes e moças ainda não têm computador em casa.
(no meio da carta toca o telefone: era a voz do Cláudio -- numa ligação entrecortada compreendo que acabou o combustível zero zero nem uma gota e eles no meio do mar quatro homens, um motor calado e um barco à deriva ai de mim SOS o rádio! falaram no rádio e quem escutou foi um barco da Marinha brasileira um encouraçado, quiçá um Potekim).
Parou ao lado do saveiro: os nautas, estupefatos. Disse-me ele: acho que se as sereias de rabo e peitos tivessem aparecido ali o susto seria menor (e por certo, melhor). Abriram um alçapão, imagino, não deu para perguntar os detalhes, só sei que veio uma lancha cheia de soldados pra cima deles e fiscalizaram tudo, a Marinha e o IBAMA. Cláudio tem carteira oficial de pescador mas como não tinha o outro certificado, a licença para pescar, levaram todos os peixes pescados -- em troca o combustível para chegar na praia.
E agora acho que vou terminar esta cartinha porque fiquei sem concentração. Quando você puder, me escreve.
exposição de pelados
"
Árabe com flores", de Herbert List, (1935) quando a fotografia já passara a explorar novos ângulos
Marilyn Monroe, clicada pela câmera do fotógrafo Bert Sterns (1962)

Árabe com flores", de Herbert List, (1935) quando a fotografia já passara a explorar novos ângulos
Marilyn Monroe, clicada pela câmera do fotógrafo Bert Sterns (1962)
A exposição "Nude Visions - 150 anos de imagens de corpos na fotografia", em cartaz em um museu de Munique, no Sul da Alemanha, conta a história do nu artístico na fotografia através das décadas.
Com cerca de 250 trabalhos, a mostra do Münchener Stadtmusem procura investigar os limites entre arte, sensualidade e pornografia.
Aberta até dia 13 de setembro, a exposição é organizada cronologicamente, trazendo um panorama que vai de 1855 até 2005.
As peças mais antigas são datadas do início da história da fotografia, na metade do século 19. Essas obras, entretanto, não tinham um fim artístico - eram produzidas para servir de apoio ao estudo de pintores, desenhistas e escultores.
Somente no começo do século 20 é que o gênero ganha vida própria, se transformando em obra de arte, com diversas correntes.
Com cerca de 250 trabalhos, a mostra do Münchener Stadtmusem procura investigar os limites entre arte, sensualidade e pornografia.
Aberta até dia 13 de setembro, a exposição é organizada cronologicamente, trazendo um panorama que vai de 1855 até 2005.
As peças mais antigas são datadas do início da história da fotografia, na metade do século 19. Essas obras, entretanto, não tinham um fim artístico - eram produzidas para servir de apoio ao estudo de pintores, desenhistas e escultores.
Somente no começo do século 20 é que o gênero ganha vida própria, se transformando em obra de arte, com diversas correntes.
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BBC - Brasil
o outro invisível

excerto de "A elegância do ouriço"
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"Aí vai, portanto, meu pensamento profundo do dia: é a primeira vez que encontro alguém que procura as pessoas e que vê além. Isso pode parecer trivial, mas acho, mesmo assim, que é profundo. Nunca vemos além de nossas certezas e, mais grave ainda, renunciamos ao encontro, apenas encontramos a nós mesmos sem nos reconhecer nesses espelhos permanentes. Se nos déssemos conta, se tomássemos consciência do fato de que sempre olharmos apenas para nós mesmos no outro, que estamos sozinhos no deserto, enlouqueceríamos".
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tela do pintor suíço, Ferdinand Hodler (1853-1918)
A elegância do ouriço

Trecho de "A elegância do ouriço", de Muriel Barbery, com mais de 850 exemplares vendidos na França. A estória se passa num prédio de apartamentos de luxo em Paris. Os personagens principais são uma zeladora de meia-idade, culta e desconfiada, uma adolescente pensativa e cheia de birra, um senhor japonês misterioso... Um delicioso romance filosófico!
No excerto abaixo, a voz da adolescente
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"No sábado passado fomos a um restaurante assim, muito chique, o Napoléon’s Bar. Era um programa familiar, para festejar o aniversário de Colombe. Que escolheu os pratos com a mesma graça costumeira: uns trecos pretensiosos com umas castanhas, um cordeiro com ervas de nome impronunciável, um zabaione ao Grand Marnier (o cúmulo do horror). O zabaione é o emblema da cozinha francesa: um troço que pretende ser leve e sufoca o primeiro cristo que aparece. Não comi nada de entrada e depois comi sessenta e três euros de filés de vermelho ao curry (com cubos crocantes de abobrinhas e cenouras debaixo do peixe) e depois, por trinta e quatro euros, o que encontrei de menos ruim no cardápio: um fondant de chocolate amargo. Vou llhes dizer: por esse preço eu preferira uma assinatura anual no McDonald’s. Pelo menos é sem pretensão no mau gosto. E nem falo da decoração do restaurante e da mesa. Quando os franceses querem se diferenciar da tradição “império” das tapeçarias bordô e douradas à vontade, caem no estilo hospital. A gente senta em cadeiras Le Corbusier (“de Corbu”, diz mamãe), come em louça branca de formas geométricas muito burocracia soviética e enxuga as mãos no toalete com toalhas tão finas que não absorvem nada.
A simplicidade não é isso. Nos mangás, os personagens parecem comer outras coisas. Tudo de um jeito simples, requintado, comedido, delicioso. Come-se com quem olha um belo quadro ou como quem canta num coral. Não é demais nem de menos: comedido, no bom sentido da palavra. Talvez eu me engane redondamente, mas a cozinha francesa parece velha e pretensiosa, ao passo que a cozinha japonesa parece... pois é, nem jovem, nem velha. Eterna e divina."
"No sábado passado fomos a um restaurante assim, muito chique, o Napoléon’s Bar. Era um programa familiar, para festejar o aniversário de Colombe. Que escolheu os pratos com a mesma graça costumeira: uns trecos pretensiosos com umas castanhas, um cordeiro com ervas de nome impronunciável, um zabaione ao Grand Marnier (o cúmulo do horror). O zabaione é o emblema da cozinha francesa: um troço que pretende ser leve e sufoca o primeiro cristo que aparece. Não comi nada de entrada e depois comi sessenta e três euros de filés de vermelho ao curry (com cubos crocantes de abobrinhas e cenouras debaixo do peixe) e depois, por trinta e quatro euros, o que encontrei de menos ruim no cardápio: um fondant de chocolate amargo. Vou llhes dizer: por esse preço eu preferira uma assinatura anual no McDonald’s. Pelo menos é sem pretensão no mau gosto. E nem falo da decoração do restaurante e da mesa. Quando os franceses querem se diferenciar da tradição “império” das tapeçarias bordô e douradas à vontade, caem no estilo hospital. A gente senta em cadeiras Le Corbusier (“de Corbu”, diz mamãe), come em louça branca de formas geométricas muito burocracia soviética e enxuga as mãos no toalete com toalhas tão finas que não absorvem nada.
A simplicidade não é isso. Nos mangás, os personagens parecem comer outras coisas. Tudo de um jeito simples, requintado, comedido, delicioso. Come-se com quem olha um belo quadro ou como quem canta num coral. Não é demais nem de menos: comedido, no bom sentido da palavra. Talvez eu me engane redondamente, mas a cozinha francesa parece velha e pretensiosa, ao passo que a cozinha japonesa parece... pois é, nem jovem, nem velha. Eterna e divina."
Vida de pescador

Fiquei a ver navios...-------------------
Lá se foi o Cláudio, ontem de manhã, para mais uma jornada pelo mar. Vão longe, eles e os amigos; conta que à noite é uma escuridão total, só o brilho das estrelas.
É um passeio extenuante, o barco no seu incessante movimento oscilatório, as mil e uma vezes que se joga a linha com anzol, o trato dos peixes, o sono interrompido (quando há).
Suerte, pescadores!
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obra de Adriana Varejão
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Carteira de identidade

O desabafo do jornalista baiano e o aniversário do Seu Capador ontem me fizeram pensar novamente sobre identidade e sentimento de pertencer. O tema é velho, mas está mais na moda do que nunca. Convivo com uma antiga inquietude que se acentuou com a saída de Brasília há três anos e o exercício de adaptação às novas cidades onde agora respiro: o minúsculo povoado de Santo André e a megalópolis paulistana. Tenho o pressentimento que não estou sozinha nesse desconforto, sinto que é algo generalizado, uma pandemia, como a gripe ou a violência.
Não existe agora lugar que possa chamar de meu; parece que há um estranhamento me esperando em cada esquina da vida. Mas como pequenos milagres existem e são até cotidianos, encontros ocorrem onde quer que eu ponha os pés.
Não existe agora lugar que possa chamar de meu; parece que há um estranhamento me esperando em cada esquina da vida. Mas como pequenos milagres existem e são até cotidianos, encontros ocorrem onde quer que eu ponha os pés.
Como pensar nos meus filhos, genro, netos, irmãos: o vínculo do sangue.
Como no convívio com meu companheiro – a estrada mais aberta e ensolarada, de tanta sombra que fomos afastando com o passar dos anos.
Como no almoço com os amigos, ontem, no Guaiú: a construção de uma nova rede social: obra em progresso.
Como o som da campainha e a visão no portão do grupo de adolescentes aprendizes de rádioweb, de jornalista, de filmar e gravar. Hoje à noite, antes da exibição do filme regular do Cine Cajueiro, o palco – que é a rua – e a tela amarrada na cerca serão deles.
E como no aniversário do Seu Capador que ontem fez 87 anos, dançou boi duro e forró, cantou música do folclore e desfilou sua espantosa energia entre nós. É a segunda vez que vejo o povoado parar para comemorar o aniversário de uma pessoa velha (o outro foi o da italiana Dudu). Na rua, as bandeirinhas, as palhas dos coqueiros, a música, a comida e a dança.
Me deu vontade de colocar minha carteira de identidade pregada na roupa, como um crachá.
Como no convívio com meu companheiro – a estrada mais aberta e ensolarada, de tanta sombra que fomos afastando com o passar dos anos.
Como no almoço com os amigos, ontem, no Guaiú: a construção de uma nova rede social: obra em progresso.
Como o som da campainha e a visão no portão do grupo de adolescentes aprendizes de rádioweb, de jornalista, de filmar e gravar. Hoje à noite, antes da exibição do filme regular do Cine Cajueiro, o palco – que é a rua – e a tela amarrada na cerca serão deles.
E como no aniversário do Seu Capador que ontem fez 87 anos, dançou boi duro e forró, cantou música do folclore e desfilou sua espantosa energia entre nós. É a segunda vez que vejo o povoado parar para comemorar o aniversário de uma pessoa velha (o outro foi o da italiana Dudu). Na rua, as bandeirinhas, as palhas dos coqueiros, a música, a comida e a dança.
Me deu vontade de colocar minha carteira de identidade pregada na roupa, como um crachá.
Abaporu
terça-feira, 23 de junho de 2009
Mulherada de Santo André
O mito de Rosebud


Quem já não enjoou de ver o filme Cidadão Kane (1941) incluído na lista dos melhores filmes de todos os tempos?
Citizen Kane foi o primeiro filme do diretor Orson Welles que, nada bobo, contratou os melhores profissionais de sua época -- gente como Bernard Hermann, um ótimo arranjador de trilhas sonoras ou o fotógrafo Gregg Tolland que trabalhou com o plano de fundo como nunca havia antes feito.
Charles Foster Kane, o Cidadão Kane, é um personagem baseado na vida do magnata William Randolph Hearst, o poderoso dono de um império jornalístico. Consta que ele ficou furioso após a exibição do filme devido à palavra misteriosa que Kane pronuncia antes de morrer: rosebud (que em português significa "botão de rosa") era o nome carinhoso que Hearwt usava para denominar a parte íntima de sua mulher.
Hearst destruiu cópias do longa e o difamou em seus jornais resultando em má bilheteria.
A sequência de abertura é lendária: a câmera se aproxima pouco a pouco da mansão onde Hearst morava (Xanadu), aparece o sinal "proibida a entrada", a luz do castelo se apaga e a palavra Rosebud é sussurada de modo surreal, seguida pelo close da mão que solta uma bola de neve para se espatifar no chão e culmina com a morte de Kane. É um começo invertido, o personagem principal morre no começo do filme e sua vida é contada por meio de flash backs, um recurso que nunca havia sido empregado no cinema até então.
O mais interessante é que os flasbacks são inseridos de acordo com a visão de diversos personagens – são vários pontos de vista, o que enriquece o filme de maneira ímpar.
Mas afinal o que é Rosebud?
Mas afinal o que é Rosebud?
Numa resposta fácil, é o trenó de Kane, o símbolo de sua infância antes de se separar de sua mãe para assumir o império que lhe estava destinado. A palavra representa o único tempo feliz na vida de uma pessoa que teve tudo e ao mesmo tempo não teve nada pois não soube transformar sua riqueza material em enriquecimento espiritual.
Rosebud é a busca do tempo perdido a que todos estamos submetidos, a eterna e antiga insatisfação da humanidade.
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cabeçalho do blog de Pedro Henrique
foto de Orson Welles
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Novas linhas aéreas para Porto Seguro

"A malha aérea de Porto Seguro ganhará dois novos voos regulares a partir do final do mês de junho. Resultado do trabalho de articulação da Secretaria de Turismo de Porto Seguro e parceiros, os novos voos irão garantir um aumento diário de aproximadamente 30% da capacidade aérea local. O primeiro voo, da empresa Trip, iniciará suas operações no dia 29 de junho, e fará a rota Rio de Janeiro – Porto Seguro – Rio de Janeiro, com previsão de chegada na cidade às 13h e saída às 16h. A conquista foi obtida pela Bahiatursa em parceria com a Secretaria de Turismo de Porto Seguro. “Nosso objetivo é facilitar o acesso dos turistas ao segundo maior destino turístico da Bahia”, disse a presidente da Bahiatursa, Emília Salvador. O segundo voo, operado pela Gol, começará dia 1º de julho, fazendo a rota Brasília – Confins (Minas Gerais) – Porto Seguro.O anúncio foi feito durante reunião do secretário de Turismo de Porto Seguro, Paulo César Magalhães, com a Gol e dez operadores de turismo mineiros. De acordo com Paulo César, as negociações com a Gol foram iniciadas há um mês, após uma visita aos operadores de turismo mineiros. “Durante as reuniões, a principal dificuldade operacional apontada por eles foi a deficiência na malha aérea. Imediatamente iniciamos as articulações com as empresas aéreas para conseguir novos voos”, disse o secretário. Após o anúncio da nova conquista com a Gol, Paulo César seguiu para São Paulo, onde se reuniu com o gerente de Plano de Voos da empresa Tam, Marcos Castanheiro.“Durante o encontro, conversamos sobre as possibilidades de melhoria, inclusive referente ao voo da Tap (parceira da Tam) que vem de Portugal para Salvador em um horário que não permite ao passageiro pegar uma conexão no mesmo dia para Porto Seguro, dificultando o acesso e fazendo o turista mudar seu plano de viagem, excluindo nossa cidade do roteiro”, afirmou. A Tam ficou de avaliar a situação e estudar propostas que possam ser viáveis tanto para a empresa quanto para o destino. "
Fonte: Assessoria de Imprensa – Secretaria de Turismo de Porto Seguro
domingo, 21 de junho de 2009
Cultura ou vestidos?

Mafalda nasceu na Argentina no começo da década de 60. Desde cedo a carismática garotinha demonstrou ser politizada, sempre brigando com o mundo da injustiça, guerra e intolerância.
Seu pai é Joaquin Salvador Lavado, conhecido no mundo todo como Quino, um homem cheio de humor e sarcasmo como mostram as tirinhas dedicadas as desigualdade entre as classes, aos conflitos políticos, ou as relações tensas entre as potências mundiais.
A última tirinha da Mafalda foi escrita em 1975, por decisão do próprio Quino.
Simetria

"Havia um homem que se sentia atraído por contrabaixos
porque lhe faziam lembrar mulheres nuas com peitos
envernizados.Têm o tipo de ancas, dizia, que levam os homens
à loucura.
Obviamente que não se importava que, por razões de
simetria, as mulheres lhe fizessem lembrar contrabaixos nus.
Delas dizia, também têm o tipo de ancas que levam
os homens
à loucura.
Uma vez pediu a uma mulher para ser o instrumento da sua música.
Ela respondeu, está a brincar, por quem me toma, algum
contrabaixo?…"
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poema de Russel Edson,(1935), considerado o mais importante autor americano de poesia em prosa.
A casa da vizinha argentina
| hibiscus, a flor-símbolo da Bahia |
Adriana Varejão

Adriana Varejão (Rio de Janeiro RJ 1964). Pintora. Freqüenta cursos livres na Escola de Artes Visuais do Parque Lage - EAV/Parque Lage, no Rio de Janeiro, entre 1981 e 1985. Faz sua primeira exposição individual em 1988, na Galeria Thomas Cohn, no Rio de Janeiro. Em sua produção, evoca repertório de imagens associadas à história do período colonial brasileiro, como azulejos e mapas. Em obras que se situam entre a pintura e o relevo, emprega freqüentemente cortes e suturas em telas e outros suportes que permitem entrever materiais internos que imitam o aspecto de carne. A artista evoca também o barroco, associando pintura, escultura e arquitetura em seus trabalhos.

fonte: Itaú Cultural
(veja também: Brumadinho, a capital mundial da arte contemporânea)
(veja também: Brumadinho, a capital mundial da arte contemporânea)
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