domingo, 3 de abril de 2011

Sob o peso dos meus amores

Meu lugar favorito em são Paulo não é restaurante, nem bar, nem sala de recital. Eu gosto mesmo é de um salão de exposição.  É inegável o prazer de contemplar coisas bonitas, intrigantes ou surpreendentes...Vira vício, vício barato, em muitos lugares se entra de graça ou se paga menos de dez reais.   Na avenida paulista tem pelo menos meia dúzia de bons espaços para exposições com catraca livre. Meu predileto é o prédio do Itaú Cultural  -- quando subo a pequena escadaria da entrada já fico na expectativa de uma boa surpresa.  Comecei o percurso,  na atual temporada citadina, entrando para ver a nona edição do Projeto Ocupação que está se ocupando da obra do poeta, ensaísta e tradutor Haroldo de Campos.   A mostra apresenta instalações como a peça sonora e visual H LÁXIA (que dá título à exposição) livros anotados pelo poeta, manuscritos, fotografias. Uma recriação do ambiente onde Haroldo trabalhava. Assim o público pode vislumbrar um pouco do que o poeta e tradutor pensava no momento em que lia aquelas obras. Ao sair, percebi o anúncio da retrospectiva do artista plástico Leonilson, mas como já estava tarde, e eu só tinha uma vaga referência dele no meu pequeno arquivo artístico, segui adiante.
Foi tão bom ter voltado pra ver o Leonilson. Seus trabalhos estão espalhados por três andares onde as paredes e os pisos foram totalmente revestidos com uma madeira clara e leve. Parece que estamos entrando numa imensa caixa de compensado, mas a sensação é agradável -- faz um barulhinho bom caminhar em cima..
A curadoria escolheu dezenas de quadros e desenhos, bordados, cartazes, brinquedos... Todo o particular, o secreto e o romântico deste artista que escrevia, bordava e pintava palavras nas suas obras . Esse diálogo entre palavra e imagem resulta numa criação verbovisual instigante.  Ao longo do passeio pelos salões meus pensamentos giravam, imaginando  histórias e significados que o artista, por certo, nunca pensou em atribuir. A obra de Leonilson passa longe do apelo cerebral  (esse moço era um sedutor..), ela nos leva a pensar em amor, charada, quebra-cabeça.
Olha só esse travesseirinho, está bordado nele a palavra ninguém. Mais eloquente do que isso, impossível.
Quem morre comigo, 1982. Acrílica sobre napa.
obrigada pela dica, Malu
“Meus trabalhos são todos ambíguos. Eles não entregam uma verdade diretamente, mas mostram uma visão aberta. Eu nunca me conformei com um lado único das coisas.”
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"Minha arte não é separada de minha vida. Meu ateliê fica do lado da minha casa. A arte é minha vida e me ajuda no caminho interior.  Aumento o meu conhecimento de mim mesmo. Minha ligação com a arte é decorrente de uma procura interior mais intensa. Admito a realidade externa, mas quero que seja mais forte minha realidade interna. Daí porque meus trabalhos são muito diferentes um do outro. E, por mais abstratos que sejam, querem sempre dizer do movimento do mundo. Das coisas que passam e são ou não absorvidas pela gente."
(In O Povo, Fortaleza, novembro de 1984)
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 Acossado, de Jean-Luc Godard
"Sobre o peso de meu amores
Eu vejo a distância
Eu vejo o perigo
Eu vejo os outros gritando
Eu vejo um
Eu vejo o outro
Não sei qual amo mais
Sob o peso dos meus amores."
(Leonilson)
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"É das experiências pessoais que o artista, através da sua poética, eleva questões particulares e as desdobra em temas universais de fácil identificação e encontro com o outro, Leonilson captura o espectador justamente tornando-o cúmplice de suas questões." 
(Projeto Leonilson)

4 comentários:

Blog da Regbit disse...

FASCINANTE O MUNDO DA ARTE, EM SAO PAULO É O ENCONTRO DELAS HAJA TEMPO PARA VÊ ALGUMAS DELAS, PASSEI A CONHECER MAS UM ARTISTA PELA SUA POSTAGEM quero mas.....

olimpia disse...

Regina, mas Brasília também tem muita exposição boa, não? Como a do Escher, no CCBB. Foi uma amiga minha, a Geno, quem montou, ela mora aqui em SP.
Estou doida para ver. Começa dia 19 de abril em são paulo

Antenakus disse...

"Admito a realidade externa, mas quero que seja mais forte minha realidade interna." Adorei essa frase! Levemente autista, mas demais.

olimpia disse...

"Levemente autista" é ótimo...