domingo, 21 de março de 2010

Gaúchos e baianos: um texto enviado por Lou Figueiredo

Recebi este texto de um morador de Santo André -- representa o ponto de vista de um jornalista gaúcho. Para adequá-lo ao estilo do Rede Furada (textos menores) precisei sintetizá-lo um pouco, mas deixando a escrita do autor.
Foto de Salvador de Pierre Verger
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"Me chamo Elilson Cabral, sou de uma pequena cidade no interior do Rio Grande do Sul chamada Capão da Canoa, e andava farto de ouvir falar dos baianos e sua “vasta cultura”. Não suportava mais ouvir o quanto a Bahia era perfeita, suas praias paradisíacas, seus artistas infindos, ou coisas do tipo “baiano não nasce, estréia”. Olhava pro rosto do povo riograndense e via neles tanto ou mais cultura que nos baianos, afinal temos a bocha, a milonga, a guarânia, o chimarrão... o que o mundo via na Bahia que não via em nós?
Resolvi então descobrir o que é que a Bahia tem.
No dia 03 de outubro de 1999 desembarquei em Salvador e, logo de cara, ao contrário de baianas com suas roupas brancas e suas barracas de acarajé, dei de cara com um taxista mal humorado porque lhe tinham roubado o celular. Chegando no hotel preparei minha estratégia e resolvi logo ir ao local mais badalado da Bahia, o pelourinho. Chegando no bairro só achei casas antigas e cabelos trançados, espichados, alisados, pintados, enfim, coisas da Bahia. Bem vou encurtar minha historia para que vocês, leitores, não fiquem entediados.
Passei dois anos viajando por toda Bahia, suas praias paradisíacas, ouvindo e vendo seus artistas, saboreando a cultura e consegui chegar a um denominador comum: os baianos não são melhores que nós, gaúchos, na realidade somos até mais civilizados. Ao voltar para minha linda cidade no interior do Rio Grande do Sul senti-me como se tivesse pousado no meu planeta, e logo escrevi um artigo pra uma revista. Agora sim, estou leve.
Será?
Parece que não. Passo os dias tentando entender porque sinto tanta falta da Bahia, porque sinto falta de meu vizinho Dorgival, do rapaz que passava vendendo sacolé, do João da barraca de água de coco, meu Deus porque esse vazio? Foi então que descobri o que é que a Bahia tem. Sem pretensão de ofender os meus, digo-lhes que jamais verei nos sorrisos gaúchos a sinceridade do sorriso baiano, jamais sentirei nas percussões de cá o pulsar dos meninos negros de pés descalços que “oloduavam” sem ter medo da dureza futura, jamais terei no abraço de meus parentes o calor que sentia ao ser abraçado pela vendedora de cocada de araçá, jamais sentirei nos territórios daqui o cheiro de dendê. Queridos conterrâneos, na nação de lá eles andam descalços e não é por não terem calçados, eles gostam de viver assim, a chuva não é apenas suprimento e fartura, é diversão, quantas vezes corri pela chuva com o André, filho de Dona Zete. Amigos, naquela nação os cabelos são como roupas, as roupas são como armas e as armas são os instrumentos, que levam uma multidão para uma batalha que dura 7 dias e que sempre acaba em vitória para ambos os lados, uma cabaça é motivo de festa, um fio de arame motivo pra luta (de capoeira), dois homens juntos é motivo pra samba, pagode, e festa. E pasmem queridos patrícios, eles trabalham, e muito, no tabuleiro de cocada, na frente de um volante, com uma baqueta nas mãos, trabalham sim. Não quero ser baiano. Sou gaúcho e brasileiro.
Mas nunca imaginei que conheceria um Brasil que jamais pensei achar exatamente na Bahia, exatamente lá, do outro lado, na outra nação. Não quero me separar deles, não quero perder o direito de dizer que sou brasileiro e que tenho a Bahia como pedaço de mim. Não quero ser baiano, mas mesmo assim não consigo não ser.
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(contribuição de Lou Figueiredo, o proprietário do único fusca de Santo André)

(obrigada!)



4 comentários:

Meu projeto de Guest House em Santo André - Bahia disse...

Olá Olimpia, incrível como este meu conterrâneo foi feliz em caracterizar o festiço que a Bahia exerce sobre nós os sulistas. Lendo o texto foi mágica a identificação pessoal com o descrito por ele. Parabéns pela divulgação deste sentimento. Abraços, Gilberto Peixoto um gaúcho com um pé em Santo André.

Lou disse...

Lou Figueiredo, é minha página comercial, qual seu nome?
www.loufigueiredo.elo7.com.br

Um abraço,

olimpia disse...

Olá Lou!
Meu nome é Olimpia, moro em Santo André e sou a mantenedora deste blog... o Lou Figueiredo morava aqui, foi ele quem enviou este texto... infelizmente, ele faleceu no ano passado.
Abraços
olimpia

Desopilada disse...

Olá Olimpia,
estou procurando um Lou Figueiredo que morava em Santo André (BA)... Éramos muito amigos mas não o vejo há muitos anos... Queria saber se é o mesmo que participou do seu blog. Luis Antonio Figueiredo, de São Paulo, 3 filhos, deveria ter por volta de 67 anos hoje. Se puder, por favor me mande alguma notícia.
Muito obrigada,
Ana Adams
ana@anaadams.com